Mostrando postagens com marcador soberania de Deus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador soberania de Deus. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Teologia Relacional: um novo deus no mercado

As ondas gigantes que provocaram a tremenda catástrofe na Ásia no final de dezembro de 2004 afetaram também os arraiais evangélicos, levantando perguntas acerca de Deus, seu caráter, seu poder, seu conhecimento, seus sentimentos e seu relacionamento com o mundo e as pessoas diante de tragédias como aquela. Dentre as diferentes respostas a essas perguntas, uma chama a atenção pela ousadia de suas afirmações: Deus sofreu muito com a tragédia e certamente não a havia determinado ou previsto; ele simplesmente não pôde evitá-la, pois Deus não conhece o futuro, não controla ou guia a história, e não tem poder para fazer aquilo que gostaria. Esta é a concepção de Deus defendida por um movimento teológico conhecido como teologia relacional, ou ainda, teísmo aberto ou teologia da abertura de Deus.

A teologia relacional, como movimento, teve início em décadas recentes, embora seus conceitos sejam bem antigos. Ela ganhou popularidade por meio de escritores norte-americanos como Greg Boyd, John Sanders e Clark Pinnock. No Brasil, estas idéias têm sido assimiladas e difundidas por alguns líderes evangélicos, às vezes de forma aberta e explícita.

A teologia relacional considera a concepção tradicional de Deus como inadequada, ultrapassada e insuficiente para explicar a realidade, especialmente catástrofes como o tsunami de dezembro de 2004, e se apresenta como uma nova visão sobre Deus e sua maneira de se relacionar com a criação. Seus pontos principais podem ser resumidos desta forma:

1. O atributo mais importante de Deus é o amor. Todos os demais estão subordinados a este. Isto significa que Deus é sensível e se comove com os dramas de suas criaturas.

2. Deus não é soberano. Só pode haver real relacionamento entre Deus e suas criaturas se estas tiverem, de fato, capacidade e liberdade para cooperarem ou contrariarem os desígnios últimos de Deus. Deus abriu mão de sua soberania para que isto ocorresse. Portanto, ele é incapaz de realizar tudo o que deseja, como impedir tragédias e erradicar o mal. Contudo, ele acaba se adequando às decisões humanas e, ao final, vai obter seus objetivos eternos, pois redesenha a história de acordo com estas decisões.

3. Deus ignora o futuro, pois ele vive no tempo, e não fora dele. Ele aprende com o passar do tempo. O futuro é determinado pela combinação do que Deus e suas criaturas decidem fazer. Neste sentido, o futuro inexiste, pois os seres humanos são absolutamente livres para decidir o que quiserem e Deus não sabe antecipadamente que decisão uma determinada pessoa haverá de tomar num determinado momento.

4. Deus se arrisca. Ao criar seres racionais livres, Deus estava se arriscando, pois não sabia qual seria a decisão dos anjos e de Adão e Eva. E continua a se arriscar diariamente. Deus corre riscos porque ama suas criaturas, respeita a liberdade delas e deseja relacionar-se com elas de forma significativa.

5. Deus é vulnerável. Ele é passível de sofrimento e de erros em seus conselhos e orientações. Em seu relacionamento com o homem, seus planos podem ser frustrados. Ele se frustra e expressa esta frustração quando os seres humanos não fazem o que ele gostaria.

6. Deus muda. Ele é imutável apenas em sua essência, mas muda de planos e até mesmo se arrepende de decisões tomadas. Ele muda de acordo com as decisões de suas criaturas, ao reagir a elas. Os textos bíblicos que falam do arrependimento de Deus não devem ser interpretados de forma figurada. Eles expressam o que realmente acontece com Deus.

Estes conceitos sobre Deus decorrem da lógica adotada pela teologia relacional quanto ao conceito da liberdade plena do homem, que é o ponto doutrinário central da sua estrutura, a sua “menina dos olhos”. De acordo com a teologia relacional, para que o homem tenha realmente pleno livre arbítrio suas decisões não podem sofrer qualquer tipo de influência externa ou interna. Portanto, Deus não pode ter decretado estas decisões e nem mesmo tê-las conhecido antecipadamente. Desta forma, a teologia relacional rejeita não somente o conceito de que Deus preordenou todas as coisas (calvinismo) como também o conceito de que Deus sabe todas as coisas antecipadamente (arminianismo tradicional). Neste sentido, o assunto deve ser entendido, não como uma discussão entre calvinistas e arminianos, mas destes dois contra a teologia relacional. Vários líderes calvinistas e arminianos no âmbito mundial têm considerado esta visão da teologia relacional como alheia ao cristianismo.

A teologia relacional traz um forte apelo a alguns evangélicos, pois diz que Deus está mais próximo de nós e se relaciona mais significativamente conosco do que tem sido apresentado pela teologia tradicional. Segundo os teólogos relacionais, o cristianismo histórico tem apresentado um Deus impassível, que não se sensibiliza com os dramas de suas criaturas. A teologia relacional, por sua vez, pretende apresentar um Deus mais humano, que constrói o futuro mediante o relacionamento com suas criaturas. Os seres humanos são, dessa forma, co-participantes com Deus na construção do futuro, podendo, na verdade, determiná-lo por suas atitudes.

Contudo, a teologia relacional não é novidade. Ela tem raízes em conceitos antigos de filósofos gregos, no socinianismo (que negava exatamente que Deus conhecia o futuro, pois atos livres não podem ser preditos) e especialmente em ideologias modernas, como a teologia do processo. O que ela tem de novo é que virou um movimento teológico composto de escritores e teólogos que se uniram em torno dos pontos comuns e estão dispostos a persuadir a igreja cristã a abandonar seu conceito tradicional de Deus e a convencê-la que esta “nova” visão de Deus é evangélica e bíblica.

Mesmo tendo surgido como uma reação a uma possível ênfase exagerada na impassividade e transcendência de Deus, a teologia relacional acaba sendo um problema para a igreja evangélica, especialmente em seu conceito sobre Deus. Embora os evangélicos tenham divergências profundas em algumas questões, reformados, arminianos, wesleyanos, pentecostais, tradicionais, neopentecostais e outros, todos concordam, no mínimo, que Deus conhece todas as coisas, que é onipotente e soberano. Entretanto, o Deus da teologia relacional é totalmente diferente daquele da teologia cristã. Não se pode afirmar que os adeptos da teologia relacional não são cristãos, mas que o conceito que eles têm de Deus é, no mínimo, estranho ao cristianismo histórico.

Ao declarar que o atributo mais importante de Deus é o amor, a teologia relacional perde o equilíbrio entre as qualidades de Deus apresentadas na Bíblia, dentre as quais o amor é apenas uma delas. Ao dizer que Deus ignora o futuro, é vulnerável e mutável, deixa sem explicação adequada dezenas de passagens bíblicas que falam da soberania, do senhorio, da onipotência e da onisciência de Deus (Is 46.10a; Jó 28; Jó 42.2; Sl 90; Sl 139; Rm 8.29; Ef 1; Tg 1.17; Ml 3.6; Gn 17.1 etc). Ao dizer que Deus não sabia qual a decisão de Adão e Eva no Éden, e que mesmo assim arriscou-se em criá-los com livre arbítrio, a teologia relacional o transforma num ser irresponsável. Ao falar do homem como co-construtor de Deus de um futuro que inexiste, a teologia relacional esquece tudo o que a Bíblia ensina sobre a queda e a corrupção do homem. Ao fim, parece-nos que na tentativa extrema de resguardar a plena liberdade do arbítrio humano, a teologia relacional está disposta a sacrificar a divindade de Deus. Ao limitar sua soberania e seu pleno conhecimento, entroniza o homem livre, todo-poderoso, no trono do universo, e desta forma, deixa-nos o desespero como única alternativa diante das tragédias e catástrofes deste mundo e o ceticismo como única atitude diante da realidade do mal no universo, roubando-nos o final feliz prometido na Bíblia. Pois, afinal, poderá este Deus ignorante, fraco, mutável, vulnerável e limitado cumprir tudo o que prometeu?

Com certeza a visão tradicional de Deus adotada pelo cristianismo histórico por séculos não é capaz de responder exaustivamente a todos os questionamentos sobre o ser e os planos de Deus. Ela própria é a primeira a admitir este ponto. Contudo, é preferível permanecer com perguntas não respondidas a aceitar respostas que contrariem conceitos claros das Escrituras. Como já havia declarado Jó há milênios (42.2,3): “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. Quem é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho? Na verdade, falei do que não entendia; cousas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia.”

Por Augustus Nicodemus Lopes

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Predestinação e livre arbítrio

Estamos diante de um tema de difícil explicação, e a razão pelo qual é complexo se dá pelo fato de que ambas as posições são escriturísticas. O assunto tem sido objeto de discussão através da história do cristianismo a mais de dois mil anos, e hoje tem sido para nós um grande desafio. Os teólogos chamam estas interrogações de antinomia. Isto acontece quando duas doutrinas bíblicas parecem discordar uma da outra. 

O obstáculo notório é que na Bíblia existe uma coleção de versículos afirmando que Deus é soberano para escolher quem ele quer. Ele escolheu, predestinou, elegeu. Em sua soberania ele tem seus escolhidos desde a fundação do mundo (Rm 8.29; Ef 1. 4-5,11; Rm.9. 6-29; 1Pe. 2.8; Jd 4; 1 Pe 1.2,20. Nas palavras de Jesus esta verdade é confirmada: Ninguém poderá vir a mim, se, pelo pai, não lhe for concedido (Jo. 6.65; 6.44; 10.25-28).

Por outro lado, encontramos vários versículos que afirmam o contrario e diz que o homem deve se arrepender, e, portanto é responsável pelos seus atos. Deus é paciente em esperar nosso arrependimento (2 Pe. 3.9), é possível rejeitar a salvação (Mt. 23.37), temos o livre arbítrio pra ouvir ou não a sua voz e arrepender-se (Ap. 3.20). Leia também: Lc 15.7; Ap.16.9; Ap.16.11. 

Sua soberania é indiscutível porque esta verdade esta explicita em toda a Bíblia. Ele é o Deus todo poderoso e soberano sobre todas as coisas. Tanto o homem como todas as coisas que foram criadas têm como propósito glorificar o Deus de toda a eternidade porque tudo foi feito por ele e para ele, e, portanto ele é indiscutivelmente soberano para escolher quem ele quer.

O homem por sua vez deve arrepender-se de seus pecados, reconhecer sua condição de pecador, sua depravação. Sua responsabilidade está em retornar para Deus numa atitude de humilhação e arrependimento sincero. Deve ouvir a voz de Deus (Ap.3.20), Aceitar a salvação (Mt.23.37) e atender a perspectiva de Deus quanto ao arrependimento.

O tema predestinação e livre arbítrio têm levados vários estudiosos da Bíblia a trilhar no caminho perigoso do extremismo. O hipercalvinismo e o arminianismo extremo tomam posições radicais não deixando espaço para uma análise mais equilibrada das escrituras.

O primeiro afirma que Deus já tem seus escolhidos desde a fundação do mundo e, portanto não há necessidade de evangelizar. Deus haverá de salvar os seus. O Hipercalvinismo não admite a ideia da responsabilidade humana dogmatizando a doutrina da predestinação.

A segunda diz que o homem deve buscar e se esforçar para receber a salvação, não crê na depravação total do homem, não admitindo a ação exclusiva de Deus quanto à salvação dos perdidos. 

Não optando pelos extremos, entendemos que o assunto deve ser analisado com prudência e humildade, pois ambas são escriturísticas. Como já dissemos, a soberania de Deus é indiscutível, mas algumas questões difíceis de explicar precisam ser colocadas aqui.

Primeiro, como Deus pode escolher a uns e desprezar a outros, visto que as escrituras diz que Deus não faz acepção de pessoas (Mt.11.28; Jo.17.20; 6.39) ? Seria pela sua presciência, sabendo quem haveria de aceitar a Cristo (arminianismo), ou pela sua soberania escolhendo quem ele quer (calvinismo)?

Segundo, e o que dizer do caso de faraó onde as escrituras nos informa que num momento Deus endurece seu coração, mais adiante o rei por sua própria vontade endurece o seu coração (Ex. 9; 12; 8:15). Soberania de Deus e livre arbítrio se misturam no caso de faraó? Difícil de responder.

Não há outro caminho a trilhar se não o do equilíbrio (Pv.3.21). Creio na possibilidade de unir duas verdades bíblicas que parecem divergir uma da outra num paradoxo. Não podemos exaltar uma doutrina em detrimento da outra, ambas são como duas linhas que correm horizontalmente lado a lado e que se encontram no final. Como diz o Dr. Augustus Nicodemus, são como dois trilhos de trem que seguem no sentido horizontal e depois desaparecem. Não sabemos o destino, somente no final.

Olhando por esta janela, podemos crer que Deus é soberano para predestinar, eleger, escolher e até rejeitar quem ele quer, mas por outro lado, o homem é responsável pelos seus atos. É desafiado a buscar a Deus. Deve arrepender-se de seus pecados, crer em Jesus e aceitá-lo como Senhor e Salvador de suas vidas. Certamente o mistério que atravessa os séculos será revelado na eternidade, pois como diz o apostolo Paulo: Conhecemos em parte, mas na sua vinda o que está oculto será revelado (1 Cor. 13. 8-12).

Portanto, Deus é soberano e tem os seus escolhidos desde a fundação do mundo, no entanto a escritura anuncia a todos os homens que se arrependam e se convertam dos seus maus caminhos (Mt 4:17;Mc 1:15;At;2:38;At:17:30).

Por Marcos Aurélio dos Santos