quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A farsa da fraude

O PT em 1988 boicotou a homologação da Carta que sacramentou a passagem do autoritarismo para a democracia no Brasil. Manifestava-se então a retórica antissistema, característica das mais criticáveis na agremiação que pretendia, e conseguiu, agigantar-se pelo voto.

Esse oposicionismo imberbe, que denunciava as mesmas regras do jogo utilizadas pelo partido para crescer e se consolidar, era claramente uma farsa. Ou uma bravata, como depois admitiria o já presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas os interessados no enraizamento da democracia deveriam se preocupar também com frases e atos hostis ao statu quo institucional patrocinados por lideranças partidárias. Existem hoje no mundo alguns exemplos de movimentos que começaram assim, mas deslizaram para aventuras autoritárias após instalados no poder.

Preocupa, a propósito, a constante pressão para deslegitimar o sistema judicial comandada por Lula e o PT. Criticar uma condenação é algo normal. Nenhum réu é obrigado a concordar com os argumentos do juiz que o sentenciou. Precisa apenas cumprir sua decisão.

Diferente é apregoar que “eleição sem Lula é fraude” e, embalado nesse slogan, marchar rumo ao Tribunal Superior Eleitoral, como fizeram agrupamentos de esquerda atrelados ao PT nesta quarta (15).

Trata-se, sem dúvida, de nova falácia fabricada pelo partido. Este terá candidato uma vez consumada a inabilitação do líder pelo TSE: será o ex-prefeito Fernando Haddad. A sigla vai participar do que chama de fraude.

O problema dos rompantes antissistema não é o que ocorre quando os seus porta-vozes perdem as eleições. O preocupante é o que acontece quando ganham e se defrontam com impasses na administração. A tentação de concretizar o que eram só bravatas se apresenta.

Não é difícil cogitar a hipótese de um representante do PT eleger-se presidente da República e colocar-se diante da oportunidade de conceder perdão aos companheiros do partido condenados na Lava Jato, incluindo Lula. Ou de solapar a autonomia das instituições de controle do exercício do poder.

O flerte com excentricidades que desprestigiam a competição política e o sistema de pesos e contrapesos no Brasil não é monopólio do PT. Derrotado na eleição de 2014, o PSDB entrou com recurso questionando a lisura da votação.

O impeachment, na visão desta Folha, era punição exagerada para os desmandos orçamentários praticados sob Dilma Rousseff. Melhor teria sido a renúncia da presidente e de seu vice, e a consequente convocação de novas eleições diretas.

A pantomima petista com Lula seria apenas mais uma recaída do partido no infantilismo, não despertasse temores sobre como pode terminar essa brincadeira.

Editorial da Folha de São Paulo, do dia 16 de agosto de 2018

sábado, 28 de julho de 2018

Ensina-nos a orar

"A oração não se mostra verdadeira quando Deus escuta o que se lhe pede. Ela é verdadeira, quando quem ora continua orando, até que seja ele mesmo a escutar o que Deus quer. Quem ora de verdade, nada mais faz senão escutar.” [1]

Teocêntricos ou antropocêntricos?

Se você quiser saber o conceito que um povo tem de Deus, preste atenção nas suas orações e nos seus cânticos. Pois é impossível ter um conceito correto de Deus revelado nas Escrituras e orar, cantar e adorar de maneira errada. Como sabemos, a teologia precede a ética, ou seja, o nosso comportamento, os nossos valores e prioridades são reflexos ou expressões do conceito que temos de Deus e da vida. Portanto, quanto mais conhecermos pelas Escrituras o Deus que se revelou na Pessoa de Jesus Cristo, quanto mais conhecermos o seu ser, os seus atributos, isto determinará a nossa maneira de orar, cantar e adorar a Deus.

Pode-se questionar: Seria possível adorar de maneira errada? Jesus disse que sim. Quando do seu encontro com a mulher samaritana, ele afirmou: “Vós adorais o que não conheceis.” Jo 4:22. Creio que um dos atributos de Deus que permeia todos os demais e que determina nosso relacionamento com Ele, através da oração e cânticos, é a soberania de Deus. Entretanto, a tendência hoje no meio cristão, é engrandecer o homem e degradar a Deus, chegando mesmo quase a divinizar o homem e humanizar a Deus. Pregamos um Deus limitado pela autonomia humana e, no dizer de R. K. Mc Gregor Wright, “Um Deus limitado pela autonomia humana, não é capaz de satisfazer as necessidades de um mundo perdido.”[2] Esta luta teve origem no Éden, quando Satanás fez o homem duvidar da palavra e do caráter de Deus. O homem perdeu o conceito correto da soberania de Deus, perdeu a visão de Deus como criador, e dele como criatura, levando-o a acreditar que poderia ser como Deus, que ele também é um ser autônomo. Essa luta entre o teocentrismo e o antropocentrismo, tem permeado toda a história humana. A. W. Pink diz: “Em toda a cristandade, com exceção que quase não pode ser levada em conta, mantém-se a teoria de que o homem determina a própria sorte e decide seu destino, através do seu “livre arbítrio”.”[3] Basta que prestemos atenção na maioria dos livros evangélicos escritos sobre oração, na maioria dos sermões pregados nas igrejas, nas letras dos cânticos, que iremos comprovar a triste realidade da centralidade humana

Uma reciclagem necessária

A soberania de Deus sempre foi o tema central de toda a bíblia. Seu primeiro versículo proclama esta verdade: “No princípio criou Deus”. Veja ainda Is. 45:5-7; Dn 2:20,22; 4:34,35; I Cr 29:10-17; Rm 9: 14-26; Ap 4:11. A soberania de Deus sempre foi o tema de Paulo, Agostinho, dos pré-reformadores, dos reformadores, Lutero, Calvino, Zuinglio, sempre foi tema dos puritanos, e o tema central da teologia reformada. Portanto, somente uma reciclagem nesta verdade suprema poderá mudar nossas mentes, nossos conceitos, e consequentemente, nossas orações e cânticos. É de suma importância que aprendamos a orar e cantar com a Bíblia.

Orações na bíblia- Busca de uma vontade soberana

Vale a pena lermos e meditarmos a respeito do conteúdo das orações que a Bíblia registra. Veja Salomão orando- I Rs 3:5-10; 8:22-61. Examine a oração de Ezequiel no templo, II Rs 19:15-19; Is 37:14-20. Observe a visão da soberania de Deus e dos decretos eternos que tinha Davi, através da sua oração em II Sm 7:18-24; I Cr 17:16-27. Descubra o processo do trabalhar de Deus na vida de Jó, para que ele se dobrasse diante da soberania de Deus e aprendesse a orar. Veja sua oração no cap. 42: 1-6. Também podemos aprender a orar com o profeta Jeremias, reconhecendo a Deus como criador dos céus e da terra e como sustentador de tudo, Jr 32:16-25. Observe a oração de Daniel no exílio, Daniel capítulo 9, como também a oração de Esdras no capítulo 9, são orações que exaltam a soberania de Deus, seu plano eterno, orações que justificam a fidelidade, a misericórdia de Deus, que reconhecem a culpa humana. Todos eles oravam baseados na palavra, nas promessas de Deus, buscavam a vontade de Deus.

No Novo Testamento vamos encontrar também magníficas orações, a começar por aquela que Jesus ensinou atendendo ao oportuno pedido de seus discípulos, conhecida como a “Oração do Pai Nosso”, Mt. 6:9-13. Nela vemos delineados os princípios da oração e podemos dizer que todas as orações verdadeiras sem dúvida terão os princípios revelados nela, pois é uma oração teocêntrica, onde o tema principal é o Reino de Deus estabelecido na terra, através do seu nome santificado e a sua vontade feita na terra como é feita nos céus. Temos também em Mt. 26:36-44 a oração de Jesus no Getsêmani, onde Ele deixa vazar seu coração como homem e se coloca diante do Pai apresentando a sua vontade, mas se submete à vontade soberana de Deus. Temos ainda no capítulo 16 do evangelho de João, a conhecida oração sacerdotal, onde Jesus, o nosso Sumo Sacerdote, revela toda a sua missão de salvar os eleitos para Deus, deixando claro que Ele veio para um povo específico, e que Ele não somente tornou possível a salvação deste povo, mas que cumpriu o propósito eterno de Deus salvando realmente o seu povo. O verso 4 diz: “Eu te glorifiquei na terra consumando a obra que me confiaste para fazer.”

Jesus ensinou os seus discípulos a respeito do plano eterno e soberano de Deus, e eles passaram estas verdades aos primeiros cristãos. É o que podemos ver em Atos 4:23-31, quando a igreja primitiva está em oração. Eles começaram proclamando a soberania de Deus como criador e senhor de tudo. No verso 28 eles declaram que tudo o que aconteceu com Jesus fazia parte do propósito predeterminado por Deus. Podemos também ver a importância da visão correta da soberania de Deus, nas orações de Paulo, tanto pela igreja de Éfeso, Ef. 1:15-23; 3:14-21; como pelas demais igrejas, Cl 1:9-12; Fp 1:9; I Ts 3:11... Paulo sempre orava para que o Espírito Santo abrisse os olhos espirituais dos irmãos, dando-lhes sabedoria para compreenderem a vontade de Deus. Os textos demonstram claramente que a visão que Paulo possuía da soberania de Deus e do mistério que lhe fora revelado, determinavam suas orações.

Como oravam os pais da igreja?

A história da igreja é testemunha de irmãos que através dos séculos, deixaram registradas suas orações manifestando de forma maravilhosa, esta visão correta a respeito de Deus e seu propósito. Um livreto que muito tem me ajudado e que eu aconselharia ao leitor adquirir, é uma coletânea de orações dos 20 séculos de história da igreja, intitulada: “Orações do povo de Cristo”, Editora Sinodal e Encontrão Editora. Neste livreto foram selecionadas as principais orações de cada século, orações feitas por irmãos que marcaram sua geração, creio que iremos aprender a orar com eles. Em todas estas orações podemos ver algo em comum: A visão correta da soberania de Deus e do seu eterno propósito. Eles sempre oravam para conhecer mais a Deus e pediam graça para realizar a sua vontade. Também creio ser indispensável meditar em outra obra sobre oração, intitulada: “Orando com os salmos”, do escritor alemão Dietrich Bonhoeffer, Encontrão Editora. Neste livro o autor nos ajuda a entender que a Bíblia é a palavra de Deus a nós, mas que os salmos são orações humanas inspiradas por Deus e dirigidas a Ele.

Dificuldades no aprendizado

Hoje temos muita dificuldade para aprender a orar. Achamos que por sabermos falar, sabemos orar; e muitas vezes, nossas orações se assemelham mais as orações dos “gentios que não conhecem a Deus, e pensam que pelo muito falar serão ouvidos.” Mt 6:7,8. A falta de revelação de quem é Deus, e quem somos nós, nos conduz a grandes erros na oração. Ouça o conselho de Salomão em Ec 5:2: “Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu, na terra; portanto, sejam poucas as tuas palavras.” Pior do que não orar é orar errado, é mais fácil ensinar quem não sabe orar do que quem já aprendeu errado. Bonhoeffer, nos ajuda entender isso, quando afirma: “Dizer que o coração é capaz de orar por natureza, é no entanto um equívoco perigoso, se bem que amplamente difundido na cristandade de hoje. Neste caso nós confundimos desejar, esperar suspirar, lamentar ou jubilar (de tudo isto nosso coração é capaz) com orar. Confundimos a terra com o céu, o ser humano com Deus. Orar não significa simplesmente derramar o coração, mas significa encontrar-se com o coração saturado ou vazio, o caminho para junto de Deus, e falar com Ele. Disto porém homem algum é capaz, para poder fazê-lo necessitamos de Jesus Cristo.” [4]

O que é orar em nome de Jesus?

Para muitos, o nome de Jesus é uma senha que abre os cofres do céu, ou uma chave que abre o coração de Deus. O nome de Jesus se torna como que uma “fórmula mágica”. Na realidade, a falta de um entendimento correto do que significa orar em nome de Jesus, tem sido fator determinante de tanta confusão com respeito a oração. Orar em nome de Jesus é orar a vontade dele, e orar a oração dele é orar junto com Ele. Vejamos ainda o que Bonhoeffer afirma a este respeito: “A verdadeira oração é, portanto, a palavra do Filho de Deus, que vive conosco, dirigida a Deus o Pai na eternidade.” [5] Os verdadeiros mestres da oração nos ensinam esta verdade, só podemos orar juntamente com Jesus. Nossas orações devem ser consequência da palavra de Deus que deve habitar ricamente em nosso coração desordenado. Devemos sempre nos perguntar: Jesus faria a oração que estou fazendo? Será que estou orando em seu nome, ou em meu próprio nome? As minhas orações são antropocêntricas ou Teocêntricas? Estou desejoso de que o nome de Deus seja santificado na terra? Que o seu reino cada vez mais seja uma realidade cada vez maior em minha vida, em minha casa e na sua igreja? Estou desejoso de que a sua vontade seja manifestada através da vida do seu povo aqui e agora? Quando examinamos nos evangelhos a vida de Jesus, percebemos que este sempre foi o seu desejo, a santificação do nome do seu pai, a manifestação do Reino de Deus na terra, e chegou mesmo a afirmar que a sua comida e a sua bebida era fazer a vontade de Deus. Que Deus nos dê graça para amarmos a sua vontade e que as nossas orações cada vez mais sejam determinadas pelo conceito que temos do plano eterno de Deus.

Orando segundo a vontade de Deus

A eficácia da nossa oração, não está na quantidade de oração que fazemos, mas sim o quanto as nossas orações estão de acordo com a vontade de Deus. Muitas vezes, pensamos: Se Deus é soberano e a sua vontade será feita, será que a oração tem algum valor? Pois como sabemos, Deus jamais fará qualquer coisa contra a sua própria vontade. Poderíamos perguntar: Se é da sua vontade realizar algo, porque necessitamos orar? Se não orarmos, Ele não irá realizar a sua vontade? Se isto é verdade, será que a vontade de Deus está limitada por nossas orações?

A Bíblia nos ajuda a compreender o mistério da oração, pois ela deixa bem claro que o Deus que determina os fins também determina os meios pelos quais a sua soberana vontade será realizada. Portanto, a verdadeira oração não é um meio para fazer Deus concordar conosco, mas um meio para desejarmos e orarmos a vontade de Deus. Deus poderia cumprir sua vontade sozinho, mas preferiu nos incluir no seu plano. Assim como a pregação da palavra de Deus é um meio para que os eleitos sejam salvos, assim também a oração é um meio para que a vontade de Deus seja feita. O próprio Jesus nos ensinou a orar: “Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu”. A verdadeira oração aqui na terra, nada mais é do que o expressar a vontade de Deus no céu. A oração não altera o que Deus já determinou, mas é o meio de realizar o que já foi preordenado. Não é a terra que comanda os céus, como muitos pensam, mas os céus comandam a terra. Quando nossas orações são determinadas pela palavra de Deus, ele nos ouve. Veja o que diz João 15:7: “Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito.” O Espírito Santo trabalha a palavra de Deus na nossa mente, mudando os nossos conceitos, e consequentemente, os nossos desejos, e então começamos a orar a vontade de Deus. I João 5:14 confirma esta verdade: “E esta é a confiança que temos para com Ele, que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve.” O ministério do Espírito Santo é realizar a vontade de Deus, jamais Ele irá contra o plano eterno e predeterminado por Deus. Romanos 8:26,27 nos esclarece que o desejo do Espírito é a vontade de Deus. “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercedo por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que Ele intercede pelos santos.” Somente tendo a nossa mente renovada pela palavra de Deus é que seremos transformados, teremos os nossos desejos mudados, pois não pensamos o que pensamos porque desejamos o que desejamos, mas desejamos o que desejamos porque pensamos como pensamos. Somente a palavra de Deus pode mudar os nossos pensamentos para podermos crer que a vontade de Deus é boa, perfeita e agradável.

O segredo da oração: Saber ouvir

Por mais estranho que nos pareça, o grande segredo para orar corretamente é saber ouvir, e não, saber falar. Assim como uma criança aprende a falar por ouvir o seu pai falar, nós aprendemos a orar, quando aprendemos a ouvir o falar de Deus. Deus nos fala através de sua palavra. A bíblia é o falar de Deus a nós na pessoa de seu Filho, portanto ela deve ser a base principal de nossa oração. É muito importante aprendermos a orar e cantar a palavra de Deus. O salmo primeiro nos diz que o varão bem aventurado é aquele que tem prazer de meditar na palavra de Deus de dia e de noite. Para ouvir precisamos ficar em silêncio e querermos ouvir “quem tem ouvidos para ouvir ouça”. Se o pior cego é aquele que não quer ver, o pior surdo é aquele que não quer ouvir. O silêncio muitas vezes nos assusta, pois o que mais nos perturba não é o barulho de fora, mas o de dentro, e muitas vezes até buscamos barulho exterior para não ouvirmos o interior. Mas na realidade, há uma grande ligação entre o silêncio e a oração.

Oração é relacionamento

Deus é um ser relacional, e nos criou à sua imagem e semelhança, portanto o relacionamento é um fator primordial em nossa vida. O nosso relacionamento com Deus determina nossa saúde emocional, reorganiza nosso mundo interior e determina os nossos relacionamentos pessoais. Os dez mandamentos não são nada mais do que princípios de relacionamentos. Os quatros primeiros são princípios para nos relacionarmos com Deus, e os seis últimos, princípios para nossos relacionamentos com o próximo. Orar nada mais é do que relacionamento com Deus, é um encontro pessoal e íntimo, que nos transforma cada vez mais à mesma imagem dele. II Co 3:17,18.

Nossa oração não pode ter o objetivo de fazer Deus funcionar para nosso uso, como se ele fosse um computador ou um eletro-doméstico. A verdadeira oração tem como objetivo relacionamento e intimidade, como disse Clemente de Alexandria: “Orar é manter a companhia com Deus.” [6] Na verdade nós não nos realizamos com oração, mas em Deus. A oração é um meio, e não um fim em si mesma. A verdadeira oração cristã deve ser trinitária, isto é, orarmos ao Pai, através ou em nome do Filho, mediante o Espírito Santo.

Nunca devemos pensar na oração como um meio de conquistar nossos desejos desordenados. Tiago 4:3 nos diz: “Pedis e não recebeis porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres.” A falta de visão da oração como relacionamento nos conduz ao erro de procurar métodos e técnicas para extrairmos o máximo de Deus. Muitos cursos e ensinamentos de oração parecem nos ensinar como tirar o melhor proveito de Deus. Hoje, somos uma geração de consumo, temos uma mente secularizada, por isso a oração se transformou em um meio de resolver problemas e obter conquistas. Pensamos na oração como um meio de mudar a vontade de Deus. Soren Kierkegaard diz: “A oração não transforma Deus, mas transforma aquele que ora. Não oramos a fim de informar a Deus, como se ele ignorasse os eventos e aquilo que estamos pensando ou sentindo. Antes oramos dizendo: “seja feita a tua vontade”.”

O maior desejo de Deus não é nos dar coisas, mas o maior bem para nós na mente de Deus é nos conformar à imagem de seu Filho (Rm 8:28,29). Somente através desta transformação é que encontraremos nossa verdadeira humanidade, pois a intimidade com Deus nos libertará de nossas trevas interiores e deixaremos de ser superficiais. A superficialidade é a maldição da nossa geração, somos obcecados pelo exterior, somos colecionadores de coisas, e acabamos por nos “coisificar”. Temos medo da oração, porque temos medo de nos conhecer, pois na luz de Deus temos luz, e diante da luz tudo se manifesta. Orar é estar nu diante de Deus, é estar vazio, totalmente dependente da graça. Orar é reconhecer nossos limites, nossa finitude, e reconhecer que somos barro nas mãos do oleiro. Orar é uma demonstração de fé. James Houston diz: “Viver sem orar é finalmente desacreditar de Deus, é perder de vista os mais importantes valores humanos, tal como a fé, a esperança e o amor.” [7]

Na oração enfrentamos uma verdadeira batalha espiritual: usar Deus para fazer a nossa vontade, ou render-nos à vontade do Pai. Na oração buscamos graça para crermos que a vontade de Deus é boa, agradável e perfeita. Quando deixamos o terreno da graça, corremos o risco de, baseados em nossa própria justiça, orarmos como o fariseu de Lucas 18:11: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais...”, e mal sabia ele que orava de si para si, e não foi justificado. Deus usa sua palavra e nossos momentos de oração para esquadrinhar nosso coração e nos revelar nossos motivos distorcidos, nossas trevas interiores. Deus não se relaciona conosco com intenções utilitárias ou para nos fazer funcionar, mas também não permite que nos relacionemos com Ele assim.

O Espírito e a oração

A Bíblia afirma que nós não sabemos orar como convém, mas que o Espírito Santo intercede por nós com gemidos inexprimíveis (Rm 8:26,27). A verdadeira oração não está baseada em nosso intelecto, mas em um coração quebrantado e contrito. Quando oramos somente com nosso intelecto, somos tentados a dar direção a Deus, a aconselhá-lo como agir. Mas Deus pelas suas muitas misericórdias usa vários meios para nos quebrantar, para tratar com nosso coração altivo. Muitas vezes, nos coloca em túneis escuros para que aprendamos a orar de verdade, para nos ensinar a depender do Espírito Santo. Geralmente nestas horas de profundas crises, nossa boca se cala, mas nosso coração se abre; nossos ouvidos se aguçam e nós paramos de ensinar a Deus, e nos colocamos como aprendizes, como aconteceu com Jó: “Quem é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho? Na verdade falei do que não entendia, coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia..., Eu te perguntarei, e tu me ensinarás.” (Jó 42:3). O propósito final de Deus foi levar Jó a uma intimidade de relacionamento, não apenas ter informações sobre Deus, não apenas ouvir falar de Deus, mas ver a Deus; e quando isso acontece, quando através da intimidade nós começamos a ter uma revelação real de Deus, nossa reação é semelhante a de Jó, diante de tanta sabedoria e poder, só nos resta nos abominarmos e nos arrependermos no pó e na cinza; e por incrível que pareça, é um momento de terror, mas de profunda alegria também, muitas vezes de medo, mas de plenitude, pois aprendemos que orar é intimidade, é andar com Deus, é um relacionamento amoroso, que nos gera uma real alegria, e como diz o Senhor: “Mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que sou o Senhor e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor” (Jr 9:24).

Nesta escola da oração nós nunca nos diplomamos, mas pelo contrário, cada vez mais clamamos: “Ensina-nos a orar”.

Por Paulo Cesar Bornelli, Presbítero da Comunidade Cristã de Maringá - Pr
Fonte: Revista "Pensador Cristão", Dezembro/2002.

Bibliografia

1 - Orar com o coração – Edições Paulinas – p. 24

2 - A Soberania Banida – R. K. Mc Gregor Wright – Edit. Cultura Cristã – p. 9

3 - Deus é soberano – A.W. Pink – Editora Fiel – p. 9

4 - Orando com os salmos – Dietrich Bonhoeffer – Editora Encontrão – p. 10

5 - Ibid, 13

6 - Orar com Deus – James Houston – Abba Press Editora – p. 7

7 - Ibid, 15

domingo, 8 de julho de 2018

Uma grande lição

A maior lição que aprendi com a queda do Brasil na Copa da Rússia?
Em questão de segundos, tudo mudou. A animação inicial deu lugar a um calafrio. Os favoritos levavam o primeiro baque: o primeiro gol que os tiraria da copa.

Referência mundial no futebol, os brasileiros sempre encantaram o mundo. Mas parece que algo mudou.

Fábrica de craques, nosso país criou gênios da bola. Por definição, um gênio é aquele que faz milagres. Que faz o que é impossível para os outros. Faz coisas que não se entende, que não se explica.

Nos anos 70, 80 e 90 foi assim. Nossos jogadores eram tão imprevisíveis, com tanto talento, que eram disputados a peso de ouro. Pareciam mágicos irreplicáveis. Quem tem, tem. Que não tem, chora.

Mas só que não é mais assim.

Os europeus tinham menos talento. Menos gingado. Menos criatividade. Eram quadrados, previsíveis. Mas nunca foram bobos.

Os maiores clubes do mundo começaram a contratar especialistas para analisar os movimentos e jogadas de seus craques brasileiros. Como corriam, como passavam e como improvisavam.

Aos poucos, a genialidade começou a fazer mais e mais sentido. Pedaladas, voleios e trivelas começaram a ser desenhadas, desvendadas. Não era como tanto estilo, mas agora outros poderiam ser treinados, instruídos no que antes parecia ser poder divino.

O talento virou processo.

E processos podem ser melhorados, estudados e replicados. Podem ser compartilhados e em pouco tempo dezenas ou milharas podem chegar no mesmo resultado.

Precisamos acabar com a cultura da adoração do talento. Do empoderamento daqueles que parecem ter “nascidos prontos”. Precisamos começar a focar no trabalho duro, mas inteligente. Na disciplina libertadora de fazer algo tantas vezes até que seja entendido, melhorado.

Uma cultura que coloca as esperanças em um só indivíduo nos torna fracos. Se ele ganha, ganhamos. Se perde, sofremos.

E isso, na minha opinião, é talvez a mais poderosa lição que tiro da Copa.

Chega de esperar o camisa 10 resolver sozinho. Chega de achar que o presidente vai mudar tudo. O diretor. O síndico. O policial. Não é uma pessoa com super poderes que vai nos salvar. Somos nós mesmos.

Talento é bom, mas não é a solução. É o início.

O fraco aplicado, se bem treinado, é mais confiável do que o gênio que é volátil. Que faz quando quer e que nunca se sabe se vai querer. De lua.

Na vida, perdemos tempo demais esperando o camisa 10 resolver o jogo. Quando o jogo precisa ser resolvido por cada um de nós, na sua posição. Melhorando a cada dia, não por ter super poderes, mas por pagar um preço que poucos estão dispostos a pagar.

Trabalho duro, mas com inteligência. Não individual, milagroso e sobre-humano. Mas consciente, coletivo, replicável.

Na vida, precisamos esperar menos dos craques. E produzir mais jogadores simples, mas que não desistem da bola.

Na escola. Na empresa. Na família. Na igreja. Até mesmo nos esportes. Não é esperar por mais gênios, é treinar mais pessoas comuns que podem ser bem acima da média.

Precisamos inspirar nossos jovens e ser a sua melhor versão de si mesmos. Não a serem uma cópia de um craque que jamais será alcançado. E que é apedrejado quando falha.

Eu não sou contra o craque. Sou contra uma estratégia de vida só conta com craques e que desestimula quem não “nasceu com talento”.

Menos talento e mais trabalho. Menos terceirizar a esperança e mais “deixa que eu resolvo”.

Quero que meu filho queira usar camisa da seleção com o nome dele, não com o do craque do momento.

Talento ajuda. Mas campeão de verdade não nasce pronto. É lapidado.

Quem entende isso, hoje em dia, ganha o jogo.

Por Pedro Superti (da sua página no Facebook)

terça-feira, 19 de junho de 2018

A música nos cultos cristãos

"Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim. " (Mateus 15:8) 

A música é um meio de adoração indispensável nos cultos cristãos. A própria Bíblia fala da importância da música como forma de adoração a Deus, por exemplo, no livro de Salmo capítulo 150, como está escrito:

“Louvai-o com o som de trombeta; louvai-o com o saltério e a harpa. Louvai-o com o tamborim e a dança, louvai-o com instrumentos de cordas e com órgãos. Louvai-o com os címbalos sonoros; louvai-o com címbalos altissonantes. Tudo quanto tem fôlego louve ao Senhor. Louvai ao Senhor”.


Todavia, com o passar dos anos a música cristã ou música gospel, como é mais conhecida, sofreu várias influências, e nem sempre as canções tocadas nos cultos refletem o desejo de adoração a Deus, mas sim a vontade do ser humano de servir a si próprio.

“Eu comecei a reconhecer que havia uma grande batalha dentro da minha adoração. Depois de cerca de dois anos, o louvor se tornou um momento de intensos ataques de bruxaria contra mim. Isso tornou ainda mais difícil a minha tentativa de focar em Jesus, porque os ataques espirituais me deixavam debilitada”. (Beth Eckert, ex-macumbeira convertida ao evangelho)

Uma adoração voltada para os interesses humanos

No início Beth Eckert não compreendeu o que estava acontecendo, até que percebeu que estava sendo induzida à adorar outra pessoa, que não era Jesus Cristo, mas os músicos, cantores e todo o ambiente emocionalmente envolvente que estava lhe fazendo mudar o foco da adoração:

“Eu não reconhecia nenhum problema durante o louvor. Mas depois de alguns meses, eu percebi que novamente a minha adoração não estava mais focada em Jesus”, disse ela, concluindo em seguida que “a música de adoração moderna tornou-se um disfarce de Satanás para atrair o povo de Deus e alinhá-lo com a adoração profana”.

O que Beth Eckert afirma é que a idolatria também pode estar presente em algumas canções e ambientes, mesmo se tratando de uma igreja cristã. “Muitas vezes, o foco do louvor está na música em si, na banda, nas luzes, na fumaça, em toda a produção, nas roupas dos líderes, mas não tem nada a ver com Jesus”, explica.

Por fim, Eckert explica que as músicas até podem fazer menção ao nome de Jesus Cristo ou Deus, mas a forma como isso é posto, se biblicamente correto ou não, é onde está a grande diferença. Ela adverte para o que seria uma forma de idolatria velada, onde o cristão, sem perceber, adora a si mesmo ou outros interesses, mas não o Senhor Jesus:

“Muitas vezes não nos damos conta de que há vários outros deuses sendo adorados. Se olharmos para o Antigo Testamento, veremos que estamos lutando exatamente contra os mesmos deuses, como Baal, Malok”, diz ela.

“Estes são apenas alguns dos nomes dos deuses que ainda estão ‘vivos’ na mente das pessoas, sendo adorados ativamente e estão sendo enviados às casas de adoração, muitas vezes infiltrados dentro das próprias igrejas”, conclui.

Com informações: Guiame.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Chamado efetivo e conversão: Posso resistir ao Espirito Santo?

A doutrina reformada da graça irresistível, também chamada de graça eficaz, afirma que Deus regenera e converte os eleitos por meio daquilo que é conhecido como o chamado efetivo. Esse é o chamado interior do Espírito Santo que persuade e convida o pecador a receber a Cristo, ao mesmo tempo em que o pecador é regenerado e renovado interiormente de modo a amar ao Senhor e crer prontamente no evangelho. Esse chamado deve ser distinguido do chamado exterior do evangelho, o convite feito a todas as pessoas indiscriminadamente pela pregação do evangelho, do testemunho, da ministração dos sacramentos e de outras proclamações da Palavra de Deus. Não obstante, o chamado interior muitas vezes acompanha e opera por meio do chamado exterior. Enquanto outras tradições ensinam que esse convite interior do Espírito Santo pode ser aceito ou rejeitado, a teologia reformada insiste que o chamado interior de Deus é efetivo, ou seja, nunca deixa de salvar aqueles que são chamados desse modo.

A Bíblia fala do chamado efetivo de Deus em várias passagens, mas talvez a que o distingue mais claramente do chamado exterior é Romanos 8.29-30. Nesses versículos, Paulo indica que o grupo daqueles que são chamados corresponde ao grupo daqueles que são predestinados, justificados e, por fim, glorificados. Fica evidente que esse chamado é dirigido somente aos que são salvos - bem como a todos os que são salvos (Romanos 1.7; Judas 1; Apocalipse 17.14).

O chamado efetivo é necessário em função do estado decaído da humanidade. Entorpecidos e envoltos em pecado, somos totalmente incapazes de responder de maneira afirmativa ao chamado exterior do evangelho; não dispomos dos meios para poder compreender corretamente Deus e sua mensagem de salvação (1 Coríntios 2.12-14) e odiamos a Deus e seus mandamentos (Romanos 8.5-8). Nenhuma pessoa decaída tem a capacidade moral de receber Cristo; somente aqueles a quem Deus concedeu essa capacidade podem crer no evangelho e ser convertidos (Deuteronômio 30.6; Mateus 11.25-27; 13.10-16; João 6.44,63-65; Atos 16.14).

Diante da nossa incapacidade, Deus escolheu transformar o coração dos eleitos mediante o seu chamado efetivo, implantando dentro deles uma nova capacidade moral e novos desejos, de modo que aceitem, inevitavelmente, o convite de Deus quando forem chamados (João 6.44-45; 10.1-5). É Deus quem inicia esse processo ao regenerar o nosso espírito e renovar o nosso coração (Deuteronômio 30.6; João 1.12-13; 3.5-8; Atos 16.14; Filipenses 2.12-13). Ele nos converte concedendo-nos a fé salvadora como meio infalível de obtermos a salvação (Atos 13.48; 1 Coríntios 1.22-31; Efésios 2.8-9; Filipenses 1.29; 130 5.20).

Por falar em regenerar o nosso espírito, vamos abrir um parêntese aqui e falar um pouco sobre regeneração. O termo regeneração, equivalente a "nascer de novo", é um termo técnico que se refere à revitalização que Deus opera numa pessoa implantando em seu interior novos desejos, propósitos, bem como, a capacidade moral que conduz a uma resposta favorável ao evangelho de Cristo. A palavra "regeneração" é derivada do termo grego “palingenesis” que é usado apenas duas vezes nas Escrituras. Em Mateus 1 9.2 8 Jesus se refere a uma "renovação" do universo em sua segunda vinda corno “palingenesis”. Nesse caso, o termo indica uma "segunda gênese" ou “segundo começo” para o universo, e não a renovação individual que costuma ser associada ao termo teológico "regeneração". Na outra passagem, Paulo descreve o batismo como "o lavar regenerador" (Tito 3.5). Apesar de haver quem considere essa expressão uma referência à recriação dos céus e da terra que se completará quando Jesus voltar, tradicionalmente entende-se que Paulo está falando de uma regeneração individual da pessoa batizada. Foi esse sentido posterior que os teólogos adotaram para o uso técnico do termo.

Jesus ensinou esse conceito a Nicodemos quando disse, "se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (João 3.3), indicando uma transformação muito mais profunda do que aquela exigida dos judeus para receber a vida eterna. A expressão grega traduzida como "nascer de novo" também pode significar "nascer do alto".

Segundo notas de rodapé da Bíblia de Estudo de Genebra sobre nascer de novo (João 3:3), o termo grego traduzido como "de novo" também pode ser interpretado como "do alto" ou "de cima". Essa tradução alternativa concorda satisfatoriamente com a discussão sobre as coisas "terrenas" e "celestiais" no v. 12, e também com a discussão sobre Jesus ter subido e descido, no v. 13; além disso, é empregada em outras passagens desse Evangelho (19.11,23). Por outro lado, o termo equivalente para 'regenerador" (Tito 3.5) favorece o sentido de "nascer de novo". Logo, é possível que Jesus estivesse sendo propositalmente ambíguo, sugerindo que o novo nascimento também é um nascimento do alto. Essa ambiguidade deu origem ao primeiro equívoco de Nicodemos (v. 4), que por sua vez motivou o restante da conversa.

Sobre nascer da água e do Espirito (João 3:5), essa frase enigmática induziu muitas discussões e várias propostas de solução. (1) 'Água" se refere à liberação do líquido amniótico que se segue ao nascimento físico. Porém, não há nenhuma outra passagem da Escritura em que a palavra "água" se refira ao líquido amniótico. (2) "Água" se refere à água que é usada no batismo cristão; porém, essa referência, que precedia a instituição desse ritual, não faria nenhum sentido para Nicodemos. (3) "Água" é uma referência às passagens do Antigo Testamento no qual o termo "água" e "Espírito" são unidos para expressar o derramamento do Espírito de Deus nos últimos dias ou final dos tempos (p. ex., Isaías 32.15; 44.3; Ezequiel 36.25-27). A menção dessa representação do Antigo Testamento, rica em simbolismos, explicaria a repreensão de Jesus no v. 10. (4) "Agua" se refere ao batismo de João que, tal qual o batismo cristão, significa a purificação dos pecados. Essa purificação está ligada à obra regeneradora do Espírito em SaImos 51.7-12 (cf. Tito. 3.5) e o Antigo Testamento menciona a água junto com a vinda do Espírito nos últimos dias. Essa opinião favorece a maioria dos paralelos do Antigo Testamento e faz mais sentido à luz da menção de João Batista nos caps. 1; 3.

É bem provável que Jesus tivesse os dois sentidos em mente. Por um lado, aqueles que estão mortos em pecado precisam receber uma vida nova pelo "nascimento espiritual"; num certo sentido, portanto, passam por um segundo nascimento. Por outro lado, assim como Jesus veio do céu (João 3.1 3), aqueles que entram no reino devem receber vida do Deus que está no céu (João 3.3,7). Como João expressa em outras passagens, precisamos "nascer de Deus" (veja João 1.13; 1Jo 3.9; 4.7; 5.1,4,18). Esse novo nascimento realizado pelo Espírito (João 3.8) vivifica as pessoas para as coisas de Deus e lhes dá uma nova vida para servir a Cristo.

De qualquer modo, podemos pensar na regeneração e em "nascer de novo" de modo bastante semelhante ao conceito neotestamentário de nova criação. A nova criação é uma realidade objetiva concretizada por Cristo. Quando indivíduos são ligados a Cristo pela fé nele, tornam-se parte da nova criação (2 Coríntios 5.1 7). Assim como Jesus falou da regeneração ("renovação") do universo (Mateus 19.28), é apropriado falar da regeneração ("renascimento") daqueles que estão em Cristo.

A visão reformada da regeneração pode ser destacada de outros pontos de vista em pelo menos dois sentidos. Primeiro, do catolicismo romano tradicional, segundo o qual a regeneração ocorre no batismo, um conceito conhecido como regeneração batismal. A teologia reformada afirma que a regeneração pode ocorrer em qualquer momento na vida de uma pessoa, até mesmo ainda no ventre materno (CFW 10.3) e, portanto não é o resultado automático do batismo (CFW 28.1,6).

Segundo, de outros ramos evangélicos da igreja para os quais o arrependimento e a fé conduzem à regeneração (isto é, as pessoas nascem de novo somente depois de exercitarem a fé salvadora). A teologia reformada, por outro lado, ensina que 'o pecado original e a depravação total privam todas as pessoas da capacidade moral e vontade de exercitar a fé salvadora. Por esse motivo, a regeneração antecede o arrependimento e a fé salvadora. Sem a regeneração, não podemos ver o reino de Deus (João 3.3). Depois que nascemos de Deus, recebemos a capacidade de crer em Cristo e segui-lo. A regeneração é realizada inteiramente por Deus o Espírito Santo -- não há nada que possamos fazer para obtê-la. Somente Deus ressuscita os seus eleitos da morte espiritual para a vida nova em Cristo (Efésios 2.1-10). A regeneração é uma obra miraculosa de Deus que nos leva à fé consciente, intencional e ativa em Cristo.

Voltando ao assunto do chamado efetivo, nem sempre Deus chama os eleitos dessa maneira na primeira vez que ouvem o evangelho; uma pessoa pode ser eleita e, ainda assim, rejeitar o evangelho por muitos anos. Quando isso acontece, os eleitos se comportam como todas as outras pessoas decaídas, rejeitando necessariamente o evangelho devido ao seu ódio por Deus e sua falta de capacidade moral de obedecer a ele. Muitas vezes, os cristãos pressupõem indevidamente que isso significa que o chamado interior e efetivo do Espírito Santo pode ser resistido. O chamado exterior por meio da pregação e do testemunho pode, de fato, ser resistido (Atos 13.45-46,49-51; 14.1-4). Na verdade, o chamado exterior sempre provoca resistência a menos que seja acompanhado do chamado interior efetivo. Mas o chamado interior do Espírito Santo sempre resulta em conversão.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Riqueza, mas vazio na alma

Bispo do país atribui as causas à falta de sentido existencial, conectada à profunda carência de espiritualidade e religiosidade.

Uma análise do período compreendido entre 1998 e 2010 apontou que mais de 30 mil pessoas se suicidaram no Japão em cada ano desse intervalo, taxa que, aproximadamente, continua se aplicando até o presente. Cerca de 20% dos suicídios se devem a motivos econômicos e 60% a motivos relacionados com a saúde física e a depressão, conforme recente pesquisa do governo.

O assunto é abordado pelo bispo japonês dom Isao Kikuchi em artigo divulgado pela agência AsiaNews. Ele observa que o drama se tornou mais visível a partir de 1998, “quando diversos bancos japoneses se declararam falidos, a economia do país entrou em recessão e o tradicional ‘sistema de emprego definitivo’ começou a colapsar”.

Durante os 12 anos seguintes, uma média superior a 30 mil pessoas por ano tirou a própria vida num país rico e avançado. O número, alarmante, é cinco vezes maior que o de mortes provocadas anualmente por acidentes nas rodovias.

Riqueza, tecnologia e… vazio na alma

Rodeados por riquezas materiais de todo tipo, os japoneses têm tido graves dificuldades em encontrar esperança no próprio futuro: perderam esperança para continuar vivendo, avalia o bispo.

Paradoxo: após histórica tragédia nacional, suicídios diminuíram

Um sinal de mudança, embora pequeno, foi registrado por ocasião do trágico terremoto seguido de tsunami que causou enorme destruição em áreas do Japão no mês de março de 2011: a partir daquele desastre, que despertou grande solidariedade e união no país, o número de suicídios, de modo aparentemente paradoxal, começou a diminuir. Em 2010 tinham sido 31.690. Em 2011, foram 30.651. Em 2012, 27.858. Em 2013, 27.283. A razão da diminuição não é clara, mas estima-se que uma das causas esteja ligada à reflexão sobre o sentido da vida que se percebeu entre os japoneses depois daquela colossal calamidade.

Motivos para o suicídio

Dom Isao recorda a recente pesquisa do governo que atrela 20% dos suicídios a motivos econômicos, enquanto atribui 60% a fatores de saúde física e depressão. Para o bispo, os estopins do suicídio são complexos demais para se apontar uma causa geral. No entanto, ele considera razoável e verificável afirmar que uma das razões do fenômeno é a falta de sentido espiritual na vida cotidiana dos japoneses.

O prelado observa que a abundância de riquezas materiais e o acesso aos frutos de um desenvolvimento tecnológico extraordinário são insuficientes para levar ao enriquecimento da alma. A sociedade japonesa focou no desenvolvimento material e relegou a espiritualidade e a religiosidade a um plano periférico da vida cotidiana, levando as pessoas a se isolarem e se sentirem vazias, sem significado existencial. E é sabido que o isolamento e o vazio de alma estão entre as principais causas do desespero que, no extremo, leva a dar fim à própria vida.

domingo, 29 de abril de 2018

Populisprudência

Assim como a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude, a aparência jurídica é o tributo que a populisprudência paga à jurisprudência.

Entramos na era da populisprudência, a versão judicial do populismo. A populisprudência sintoniza sua antena na opinião pública e no humor coletivo e "transcende" a lei quando esta não estiver afinada com uma causa maior. Convoca apoiadores e lhes agradece publicamente pela mobilização em defesa da "causa". Adere à cultura de celebridade, aceita prêmios em cerimônias chiques, tanto faz quem as organize ou quem sejam seus companheiros de palco. Frequenta gabinetes políticos e a imprensa, onde opina sobre a conjuntura política, alerta sobre decisões que poderá tomar em casos futuros e ataca juízes não aliados à "missão". A populisprudência é televisionada e tuitada, não está só nos autos.

O desafio populista que se abate sobre regimes democráticos ao redor do mundo ganhou no Brasil uma cor peculiar, pois recebe contribuição significativa dos aplicadores da lei. O termo "populismo" é rodeado de ambiguidades e povoa o jargão da análise política. Entendido como ameaça à democracia, o fenômeno tem dois traços elementares: é antipluralista, pois ignora a diversidade de opiniões e impõe uma visão monolítica de povo; e antiinstitucional, pois instiga as massas contra todas as regras e todos os procedimentos que impeçam a prevalência da "vontade do povo", uma entidade idealizada, livre de constrangimentos ou mediações.

Todo líder populista seleciona um povo para chamar de seu, e dele exclui os que não têm sua cor, sua cara e sua visão de mundo. O "povo" é uma espécie de clube privê, cujos sócios passam por teste de admissão. Converter o grupo de sócios numa entidade superior e se auto atribuir o rótulo de "povo" é seu truque retórico, sua violência. A cisão entre cidadãos "genuínos" e dissidentes atiça os afetos, alimenta o antagonismo e corrói o diálogo democrático.

Cortes são imaginadas como antídotos contra o populismo, não como parceiros ou órgãos auxiliares das maiorias. Recebem ferramentas para zelar pela separação de poderes e proteção de direitos. Costumam estar, por essa razão, entre os primeiros alvos do ataque de líderes autoritários. Nunca serão fortes o suficiente para subsistir a uma prolongada escalada populista, mas podem desempenhar papel relevante, como mostram muitos estudos, na neutralização desse fenômeno em estágios preliminares. O sucesso das cortes dependerá da reputação e da imagem de imparcialidade que conseguirem construir ao longo do tempo; da capacidade de ser levadas a sério, portanto.

O Brasil assiste a processo inverso: em vez de moderar o canto populista por meio da aplicação isenta da lei, juízes resolveram surfar a mesma onda na companhia de Ministério Público e de agentes policiais. Apostaram num jogo cujo custo pode ser mais alto que o eventual ganho imediato. O movimento vai da cúpula, sob liderança do STF, à primeira instância. Mistura personalismo, o culto à personalidade do líder — ingrediente típico do populismo clássico —, com um ingrediente impessoal sutil, expresso no carimbo da instituição de justiça.

Sergio Moro, Joaquim Barbosa, Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso são encarnações mais recentes do elemento personalista. Cartazes de passeatas os tratam como heróis ou inimigos, e seus nomes já entram em pesquisas de popularidade. O elemento impessoal, por sua vez, aparece nas decisões escritas, que mesclam o juridiquês com frases de efeito sobre a calamidade brasileira e o papel messiânico do Judiciário. Há juízes que preferem não aparecer, mas se somam na "missão institucional". No resultado, essas decisões parecem oscilar conforme os ventos da comoção pública, não por divergências plausíveis de interpretação da lei.

Ou seja, a populisprudência vende uma jurisprudência de fachada para ocultar escolhas de ocasião. É um jogo de alto risco, pois, quando o argumento jurídico passa a ser percebido como disfarce de posição política, e não consegue se diferenciar desta, o estado de direito atinge seu precipício.

Por Conrado Hübner Mendes, Doutor em Direito e Professor da USP