quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Sete marcas de uma igreja ideal

Parece legítimo considerar que, juntas, as sete igrejas da província da Ásia (Apocalipse 2 e 3) representam a igreja universal. E já que um aspecto específico é destacado em cada igreja, talvez possamos entender essas sete características como as marcas de uma igreja ideal.

Amor. Essa é a primeira marca de uma igreja ideal. A igreja em Éfeso possuía muitas qualidades. Cristo conhecia seu trabalho árduo e perseverança, sua intolerância ao mal e seu discernimento teológico. Alguns anos mais tarde, no início do segundo século, o Bispo Inácio de Antioquia, a caminho de Roma para ser executado como cristão, escreveu aos efésios em termos muito elogiosos: “Vós todos viveis de acordo com a verdade e nenhuma heresia tem abrigo entre vós; aliás não vos prestais a ouvir ninguém que fale outra coisa senão acerca de Jesus Cristo e sua verdade”.1
Ainda assim, Jesus tinha algo contra a igreja efésia: “você abandonou o seu primeiro amor” (2.4). Todas as virtudes dos efésios não compensavam aquela falha. Não há dúvida de que na época da conversão o amor deles por Cristo havia sido ardente e vivo, mas agora as chamas haviam definha­do. Lembramos da reclamação de Javé a Jeremias acerca de Jerusalém: “Eu me lembro de sua fidelidade quando você era jovem: como noiva, você me amava…” (Jr 2.2). Como em Jerusalém, assim também com Éfeso: o noivo celestial procurava cortejar a noiva para que ela voltasse ao primeiro êxtase de seu amor: “Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio” (2.5). Sem amor, tudo é nada.

Sofrimento. Se a primeira marca de uma igreja viva é o amor, a segunda é o sofrimento. A disposição de sofrer por Cristo prova a genuinidade de nosso amor por ele.

Cristo conhecia as aflições, a pobreza e injúria que a igreja de Esmirna estava tendo de enfrentar. Talvez esses sofrimentos estivessem associados com o culto local ao imperador, pois Esmirna orgulhava-se de seu templo em homenagem ao Imperador Tibério. De tempos em tempos, os cidadãos eram convocados para jogar incenso no fogo que queimava diante do busto do Imperador e confessar que César era o senhor. Mas como os cristãos poderiam negar o senhorio de Jesus Cristo? Em 156 d.C., o venerável Policarpo era Bispo de Esmirna. Ele enfrentou esse mesmo di­lema. No anfiteatro lotado, o procônsul instou-o a reverenciar o gênio de César e insultar Cristo, mas Policarpo recusou-se, dizendo: “Por oitenta e seis anos o tenho servido, e ele nenhum dano me causou; como então poderia eu blasfemar meu rei que me salvou?” Ele preferiu ser queimado numa estaca a negar a Cristo.2
Mais de um século antes daquilo, Cristo já havia alertado a igreja de Esmirna de que provações severas estavam chegando, inclusive prisão e talvez morte. “Seja fiel até a morte”, disse-lhes Jesus, “e eu lhe darei a coroa da vida” (2.10).

Verdade. A igreja de Pérgamo era dedicada à verdade. Assim, Jesus se apresenta como aquele que tem uma espada afiada de dois gumes saindo da boca, simbolizando sua palavra. Ele descreve a igreja de Pérgamo vivendo “onde está o trono de Satanás”, pois Pérgamo era um centro de culto pagão. Mas “precisamos concluir”, escreveu Colin Hemer, “que a expressão ‘trono de Satanás’ refere-se basicamente ao culto ao imperador conforme imposto por Pérgamo numa época de confronto para a igreja”.3 Ainda assim, apesar da oposição e até do martírio de Antipas, a igreja permanecera leal ao nome de Cristo e não havia renunciado à fé nele, embora alguns membros da igreja tivessem sucumbido a falsos ensinos que toleravam a idolatria.

Santidade. Jesus escreve a seguir à igreja de Tiatira, destacando que a santidade é outra marca de uma igreja viva. Ele começa em termos de elogios calorosos, pois conhece o amor e a fé, o serviço e a perseverança deles. Essas são quatro virtudes superiores e incluem a tríade de fé, esperança e amor.

Mas, infelizmente, esse não era o quadro completo pois, junto com as elevadas qualidades cristãs, a igreja era culpada de transgressão moral. A igreja tolerava uma pretensa profetisa maligna, simbolicamente chamada Jezabel por causa da esposa perversa de Acabe, que estava desviando servos de Cristo, levando-os à imoralidade sexual bem como à idolatria. Cristo lhe havia dado tempo para se arrepender, mas ela não se dispunha a tanto, de modo que o julgamento recairia sobre ela.

A santidade do autocontrole e da semelhança a Cristo é outra característica essencial de uma igreja viva. A tolerância não é uma virtude se o que se tolera é o mal. Deus ainda diz a seu povo: “Sejam santos porque eu sou santo”.

Sinceridade. A carta de Cristo a Sardes é a única que não contém nenhum elogio de nenhuma espécie. Antes, ele reclama: “você tem fama de estar vivo, mas está morto”. Essa igreja não parece ter tolerado o erro ou o mal, nem ter sido deficiente em amor, fé ou santidade. Ela apresentava todo sinal de vida e vigor. Mas sua reputação era falsa.

As Escrituras têm muito a dizer sobre a diferença entre reputação e realidade, entre aquilo que os seres humanos veem e o que Deus vê. “O SENHOR não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o SENHOR vê o coração” (1Sm 16.7). Ser obcecado pela aparência e reputação leva naturalmente à hipocrisia (que Jesus odiava) e nos ensina que a sinceridade caracteriza uma igreja viva e verdadeira.

Missão. Ao escrever para Filadélfia, Jesus descreve-se como alguém que detém a chave de Davi com que era capaz de abrir portas fechadas e fechar portas abertas. Assim, ele podia dizer à igreja de Filadélfia: “Eis que coloquei diante de você uma porta aberta que ninguém pode fechar” (3.8). O significado mais provável é que se trata da porta da oportunidade, como quando Paulo escreveu que em Éfeso “se abriu para mim uma porta ampla e promissora” (1Co 16.9). Isso significa que a missão é outra marca de uma igreja verdadeira. Citando G. K. Beale, todas as cartas às igrejas “tratam de maneira geral da questão do testemunho em favor de Cristo em meio a uma cultura pagã”.4

Talvez isso seja destacado na carta à Filadélfia por causa de sua localização estratégica. A Filadélfia estava situada num vale amplo e fértil que dominava rotas mercantis em todas as direções. Sir William Ramsay escreveu que a intenção do fundador da cidade fora torná-la centro de disseminação da língua e da civilização grega. Filadélfia “era uma cidade missionária desde o início”. Assim, pode ser que Cristo quisesse que Filadélfia fosse agora para a disseminação do evangelho o que fora para a cultura grega. A porta estava escancarada. Ainda que a igreja fosse comparativamente fraca, preci­sava atravessar a porta com ousadia, levando as boas novas.

Integridade. Não pode haver dúvidas acerca da mensagem de Cristo à igreja de Laodiceia: ele quer que sua igreja seja caracterizada pela integridade. Ele é muito franco. Cristo prefere que seus discípulos sejam ou quentes em sua devoção a ele ou gelados em sua hostilidade, e não mornos em sua indiferença. Ele considera a mornidão nauseante.

Do lado diretamente oposto de Laodiceia, do outro lado do Rio Lico, ficava Hierápolis, cujas fontes quentes enviavam águas tépidas por sobre os penhascos de Laodiceia, deixando depósitos de calcário que podem ser vistos ainda hoje. Assim, o adjetivo “laodiceno” entrou no vocabulário inglês para denotar pessoas mornas quanto à religião, política ou qualquer outro assunto. Laodiceia parece representar uma igreja que por fora é respeitável, mas superficial por dentro, uma das igrejas puramente nominais com que estamos familiarizados.

Quando a metáfora muda para mendigos nus e cegos, começamos a perguntar se os membros da igreja de Laodiceia eram de algum modo cristãos genuínos. Então ela muda de novo para a de uma casa vazia. Cristo coloca-se à porta, bate, fala e espera. Se abrirmos a porta, ele entra, não só para comer conosco, mas para tomar posse. Essa é a essência da integridade a que Cristo nos chama.

Assim, o Senhor ressuscitado revela-se como o pastor principal de seu rebanho. Vigiando, inspecionando e supervisionando suas igrejas, ele possui um conhecimento íntimo delas e é capaz de apontar as sete marcas que gostaria de ver manifestas em todas as igrejas: amor a ele e a disposição de sofrer por ele, verdade doutrinária e santidade de vida e dedicação à missão, junto com sinceridade e integridade em tudo.

Também observamos a igreja afligida internamente pelo pecado, erro e letargia e, externamente, por tribulação e perseguição, especialmente pela tentação de trair Cristo por César e pelos riscos reais de martírio.

Assim, com Apocalipse 4 nos voltamos abruptamente da igreja sobre a terra para a igreja no céu, de Cristo entre candelabros cintilantes para Cristo bem no centro do trono imutável de Deus. É o mesmo Cristo, mas de uma perspectiva inteiramente diferente.

Notas
1 – A Epístola de Inácio aos Efésios, cap. 6.
2 – O Martírio de Policarpo, cap. 9-16 em B. J. Kidd (ed.), Documents Illustrative of the History of the Church (SPCK, 1938), vol. 1, p. 68-71.
3 – C. J. Hermer, The Letters to the Seven Churches of Asia in their local setting (JSOT Press, 1986), p. 87, cf. p. 104.
4 – Beale, Revelation, p. 226. 11 W. M. Ramsay, The Letters to the Seven Churches of Asia (Hodder & Stoughton, 1904), p. 391-392.

Por John Stott.Texto originalmente publicado em O Incomparável Cristo, da ABU Editora.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A Cabana, o filme

É evidente o sucesso da obra literária A Cabana, um best-seller estrondoso que agora desmembrou-se num filme protagonizado por Sam Worthington e pela atriz vencedora do Oscar Octavia Spencer.

Particularmente, o ponto que me chocou no filme é que ele se apega a esquematizações e "força a barra" para criar empatia com o público desde seus minutos iniciais, quando nos é apresentada a dolorosa infância de Mackenzie e sua conturbada relação com o pai. Outro aspecto especialmente irritante do filme está intimamente ligado à fraqueza de seus diálogos. Ao invés de proporcionar ao espectador conversas profundas que iluminem a condição humana e tratem da relação do homem com Deus de forma digna, sem válvulas de escape, o filme prefere se focar nos diálogos fáceis que supostamente só têm como objetivo o de emocionar: "não se esqueça que nos amamos"; "o amor sempre deixa uma marca" e assim por diante. Fica difícil levar a sério um filme que lida com temas tão pesados e questionamentos tão "além de nós" de maneira tão formulaica e muitas vezes apelando para um humor escapista que contribui para maquiar a falta de envergadura da narrativa. Como se não bastasse, muitas vezes a impressão que dá é a de que os personagens estão falando diretamente conosco e não entre eles. A sensação de que se tem que enfiar "autoajuda de quinta categoria" goela abaixo é tão presente que os diálogos em diversos momentos não soam como diálogos, mas sim como sermões, lições de moral que nós, o público, somos obrigados a ouvir.

A Cabana, o livro que embasou o filme, é um alarme para o cristianismo evangélico. A popularidade desse livro entre os evangélicos só pode ser explicada pela falta de conhecimento teológico básico entre nós – uma falha no próprio entendimento do Evangelho de Cristo.

O mundo editorial vê poucos livros alcançarem o status de blockbuster, mas A Cabana, de William Paul Young já ultrapassou esse ponto. O livro, originalmente auto publicado por Young e mais dois amigos, já vendeu mais de 10 milhões de cópias e foi traduzido para mais de trinta línguas. Já é um dos livros mais vendidos dos últimos tempos, e seus leitores são muito entusiasmados, assim como estão ficando os espectadores do filme.

De acordo com Young, o livro foi escrito originalmente para seus filhos. Essencialmente, a história pode ser descrita como uma teodiceia narrativa – uma tentativa de responder às questões sobre o mal e o caráter de Deus por meio de uma história. Nessa história, o personagem principal está enfrentando grande sofrimento após o sequestro e homicídio brutal de sua filha de sete anos, quando recebe um convite que se torna um chamado de Deus para encontrá-lo na mesma cabana onde sua filha foi assassinada.

Na cabana, “Mack” se encontra com a divina Trindade: “Papa”, uma mulher afro-americana; Jesus, um carpinteiro judeu; e “Sarayu”, uma mulher asiática revelada como sendo o Espírito Santo. O livro é na maior parte uma série de diálogos entre Mack, Papa, Jesus e Sarayu. Essas conversas revelam um Deus bem diferente do Deus da Bíblia. “Papa” é alguém que nunca faz algum julgamento e parece muito determinado em afirmar que toda a humanidade já foi redimida.

A teologia de A Cabana não é incidental na história. De fato, em muitos pontos a narrativa parece servir apenas como estrutura para os diálogos. E os diálogos revelam uma teologia que é, no mínimo, inconvencional e indubitavelmente herética sob alguns aspectos.

Enquanto o dispositivo literário de uma “trindade” incomum das pessoas divinas é em si mesmo sub-bíblico e perigoso, as explicações teológicas são piores. “Papa” fala a Mack sobre o momento em que as três pessoas da Trindade “se manifestaram à existência humana como o Filho de Deus”. Em lugar algum da Bíblia se fala sobre o Pai ou o Espírito vindo à existência humana. A Cristologia do livro é semelhantemente confusa. “Papa” diz a Mack que, mesmo Jesus sendo completamente Deus, “ele nunca dependeu de sua natureza divina para fazer alguma coisa. Ele apenas viveu em relacionamento comigo, vivendo da mesma maneira que eu desejo viver em relacionamento com todos os seres humanos”. Quando Jesus curou cegos, “Ele o fez apenas como um ser humano dependente e limitado, confiando em minha vida e meu poder trabalhando nele e através dele. Jesus, como ser humano, não tinha poder algum em si para curar qualquer pessoa”.

Há uma extensa confusão teológica para desbaratar aí, mas é suficiente dizer que a igreja cristã tem lutado por séculos para ter um entendimento fiel da Trindade para evitar exatamente esse tipo de confusão – um entendimento que põe em risco a própria fé cristã.

Jesus diz a Mack que é “a melhor forma para qualquer humano se relacionar com Papa ou Sarayu”. Não o único caminho, mas apenas o melhor caminho.

Em outro capítulo, “Papa” corrige a teologia de Mack ao afirmar “Eu não preciso punir as pessoas pelo pecado. O pecado é a própria punição, te devorando por dentro. Não é meu propósito puni-lo; minha alegria é curá-lo”. Sem dúvida alguma, o prazer de Deus está na expiação alcançada pelo Filho. Entretanto, a Bíblia revela consistentemente que Deus é o santo e correto Juiz, que irá de fato punir pecadores. A ideia de que o pecado é meramente “a própria punição” se encaixa no conceito oriental de karma, não no evangelho cristão.

O relacionamento do Pai com o Filho, revelado em textos como João 17, é rejeitado em favor de uma igualdade absoluta de autoridade entre as pessoas da Trindade. “Papa” explica que “nós não temos nenhum conceito de autoridade final entre nós, apenas unidade”. Em um dos parágrafos mais bizarros do livro, Jesus fala para Mack: “Papa está tão submisso a mim como eu estou a ele, ou Sarayu a mim, ou Papa a ela. Submissão não tem a ver com autoridade e não é obediência; tem a ver com relacionamentos de amor e respeito. Na verdade, somos submissos a você da mesma forma”.

A submissão da trindade a um ser humano – ou a todos os seres humanos – teorizada aqui é uma inovação teológica do tipo mais extremo e perigoso. A essência da idolatria é a auto adoração, e a ideia de que a Trindade é submissa (de qualquer forma) à humanidade é indiscutivelmente idólatra.

Os aspectos mais controversos da mensagem do livro envolvem as questões de universalismo, redenção universal e reconciliação total. Jesus diz a Mack: “Aqueles que me amam vêm de todos os sistemas existentes. São Budistas ou Mórmons, Batistas ou Muçulmanos, Democratas, Republicanos e muitos que não votam ou não fazem parte de qualquer reunião dominical ou instituição religiosa”. Jesus acrescenta, “Eu não tenho nenhum desejo de torná-los cristãos, mas apenas acompanhá-los em sua transformação em filhos e filhas do meu Papa, em meus irmãos e irmãs, meus Amados”.

Mack faz então a pergunta óbvia – todos os caminhos levam a Cristo? Jesus responde “muitos caminhos não levam a lugar algum. O que significa que eu vou caminhar por qualquer caminho para te achar”.

Dado o contexto, é impossível não tirar conclusões essencialmente universalistas ou inclusivistas sobre o pensamento de William Young. “Papa” diz a Mack que ele está reconciliado com todo o mundo. Mack questiona: “Todo o mundo? Você quer dizer aqueles que acreditam em você, certo?”. “Papa” responde “O mundo inteiro, Mack”.

Tudo isso junto leva a algo muito parecido com a doutrina da reconciliação proposta por Karl Barth. E mesmo que Wayne Jacobson, colaborador de William Young, tenha lamentado que a “auto intitulada polícia doutrinária” tenha acusado o livro de ensinar a reconciliação total, ele reconhece que as primeiras versões dos manuscritos eram muito influenciadas pelas convicções “parciais, na época” de Young na reconciliação total – o ensino de que a cruz e a ressurreição de Cristo alcançaram uma reconciliação unilateral de todos os pecadores (e toda a criação) com Deus.

James B. DeYoung, do Western Theological Seminary, especialista em Novo Testamento que conhece William Young há anos, afirma que Young aceita uma forma de “universalismo cristão”. A Cabana, ele afirma, “está fundamentado na reconciliação universal”.

Mesmo quando Wayne Jacobson e outros reclamam daqueles que identificam heresias em A Cabana, o fato é que a igreja Cristã identificou explicitamente esses ensinamentos exatamente como são – heresia. A questão óbvia é: Como é que tantos cristãos evangélicos parecem não apenas serem atraídos para essa história, mas para a teologia apresentada na narrativa – uma teologia que em muitos pontos conflita com as convicções evangélicas?

Observadores evangélicos não estão sozinhos nessa questão. Escrevendo em The Chronicle of Higher Education (A Crônica da Alta Educação N. T.), o professor Timothy Beal da Case Western University argumenta que a popularidade de A Cabana sugere que os evangélicos talvez estejam mudando sua teologia. Ele cita os “modelos metafóricos não bíblicos de Deus” do livro, assim como o “não hierárquico” modelo da Trindade e, mais importante, “a teologia da salvação universal”.

Beal afirma que nada dessa teologia é parte da “teologia evangélica tradicional”, e então explica: “De fato, todas as três estão enraizadas no discurso acadêmico radical e liberal dos anos 70 e 80 – trabalho que influenciou profundamente a teologia da libertação e o feminismo contemporâneo, mas, até agora, teve pouco impacto nas conjecturas teológicas não acadêmicas, especialmente dentro do meio religioso tradicional”.

Ele então pergunta: “O que essas ideias teológicas progressivas estão fazendo dentro desse fenômeno evangélico pop?”. Resposta: “Poucos de nós sabemos, mas elas têm sido presentes nas margens liberais do pensamento evangélico por décadas”. Agora, continua, A Cabana tem introduzido e popularizado esses conceitos liberais mesmo em meio aos evangélicos tradicionais.

Timothy Beal não pode ser considerado apenas um “caçador de heresias” conservador. Ele está empolgado com a forma que essas “ideias teológicas progressivas” estão “se infiltrando na cultura popular por meio de A Cabana”.

De forma similar, escrevendo em Books & Culture (Livros & Cultura N.T.), Katherine Jeffrey conclui que A Cabana “oferece uma teodiceia pós-moderna e pós-bíblica”. Enquanto sua maior preocupação é o lugar do livro “em um cenário literário cristão”, ela não pode evitar o debate dessa mensagem teológica.

Ao avaliar o livro, deve manter-se em mente que A Cabana é uma obra de ficção. Mas é também um argumento teológico, e isso não pode ser negado. Um grande número de romances e obras de literatura notáveis contém aberrações teológicas e até heresias. A questão crucial é se a aberração doutrinária é apenas parte da história, ou é a mensagem da obra propriamente dita. Quando se fala em A Cabana, o fato mais perturbante é que muitos leitores são atraídos pela mensagem teológica do livro, e não enxergam como ela é conflitante com a Bíblia em tantos pontos cruciais.

Tudo isso revela um fracasso desastroso do discernimento evangélico. É difícil não concluir que o discernimento teológico é agora uma arte perdida entre os evangélicos – e essa perda só pode levar à catástrofe teológica.

A resposta não é banir A Cabana ou tirá-lo das mãos dos leitores. Não devemos temer livros – devemos lê-los para respondê-los. Precisamos desesperadamente de uma restauração teológica que só pode vir através da prática do discernimento bíblico. Isso requer de nós identificarmos os perigos doutrinários de A Cabana, para termos certeza. Mas nossa tarefa verdadeira é reaproximar os evangélicos dos ensinos da Bíblia sobre essas questões e cultivar um rearmamento doutrinário dos cristãos.

A Cabana é um alarme para o cristianismo evangélico. É o que dizem afirmações como as de Timothy Beal. A popularidade desse livro entre os evangélicos só pode ser explicada pela falta de conhecimento teológico básico entre nós – uma falha no próprio entendimento do Evangelho de Cristo. A perda trágica da arte do discernimento bíblico deve ser assumida como uma perda desastrosa de conhecimento bíblico. Discernimento não consegue sobreviver sem doutrina.

Com informações Voltemos ao Evangelho
Tradução: iPródigo

sexta-feira, 10 de março de 2017

Cresce a procura por igrejas sérias

Os cristãos evangélicos brasileiros são divididos em diversas denominações, que entre si, são identificadas por categorias como, por exemplo, pentecostais, reformadas, neopentecostais.

Mas há um movimento não organizado de cristãos à procura de igrejas sérias, que pregam o Evangelho como ele é, sem doutrinas criadas por homens e com foco na mensagem de Jesus Cristo.

Sobre essa tendência registrada nos quatro cantos do país, o pastor Renato Vargens – líder da Igreja Cristã da Aliança, em Niterói (RJ), usou seu blog para publicar um artigo que propõe uma reflexão sobre os motivos de existirem tantos evangélicos em busca de “igrejas sérias”.

“Em todo lugar no Brasil cresce o número de cristãos procurando igrejas sérias. Tornou-se comum, ouvir irmãos dizendo que cansaram do evangelho da autoajuda, do entretenimento, da prosperidade, do gospel e da libertinagem. De fato há uma enorme procura por igrejas bíblicas e centradas nas Escrituras, cujos pastores pregam as maravilhosas verdades do Evangelho”, comentou.

De acordo com Vargens, que é escritor e conferencista internacional, esse movimento é resultado de uma insatisfação que nasceu a partir do comportamento das próprias lideranças evangélicas, que – salvo exceções – distorcem a mensagem do Evangelho a seu próprio interesse pessoal.

Confira os motivos listados pelo pastor a seguir:

1- Os cristãos estão procurando igrejas sérias porque cansaram de ouvir pregadores fracos e despreparados tanto bíblica quanto teologicamente,

2- Os cristãos estão procurando igrejas sérias porque não suportam mais ouvir mensagens antropocêntricas cujo foco é a satisfação do freguês e não a glória de Deus.

3- Os cristãos estão procurando igrejas sérias porque não suportam mais uma igreja com louvores ensimesmados, cujo conteúdo encontra-se absorto em autoajuda.

4- Os cristãos estão procurando igrejas sérias porque não suportam mais ver o dinheiro e os recursos do Reino de Deus sendo mal administrados por pastores inescrupulosos.

5- Os cristãos estão procurando igrejas sérias porque não suportam mais ouvir heresias, distorções teológicas, e absurdos doutrinários dos mais variados possíveis.

6- Os cristãos estão procurando igrejas sérias porque estão cansados de mensagens legalistas, desprovidas de graça e sabedoria.

7- Os cristãos estão procurando igrejas sérias porque estão cansados de apóstolos, bispos e pastores messianistas, cuja o evangelho pregado é espúrio, "coronelesco", despótico e ditatorial.

Por Tiago Chagas -

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A meninização e feminilização do homem cristão

Falta homem na igreja? Não. Faltam homens que se comportem como homens? Sim. Sobram meninos. E permitam-me dizer: faltam homens com postura masculina, tanto no agir, como na aparência. Isso é um problema? Com certeza. E qual o estado desse problema? Grave! Infelizmente estamos criando uma geração de jovens cristãos meninos e femininos. Meninos pelo comportamento, pela falta de compromisso, de seriedade e de posicionamento diante de Deus e da comunidade. Femininos pelo modo de vestir, se expressar e comportar diante de Deus e da comunidade.

Qual o problema?

A igreja precisa de homens, e muito. De mulheres também, mas primordialmente de homens. Nós fomos chamados a exercer o papel de liderança, de ensino, de defesa, de posicionamento, direcionamento e de exemplo para as gerações mais novas. A igreja precisa contribuir para a formação de homens de verdade. O problema é que muitas estão contribuindo para a formação de meninos. Muitas estão contribuindo para a feminilização dos jovens. Meninos não lideram, não se posicionam e nem direcionam da maneira correta. A igreja não se sente segura. As ovelhas, principalmente mulheres e crianças, não depositarão confiança em homens que transpiram feminilidade. Uma igreja não é saudável quando seus homens não são homens de verdade. Não estou falando de homossexualidade, mas da falta de postura de um verdadeiro homem de Deus. A igreja não pode estar nas mãos de meninos.

Quais são as causas?

A igreja é a culpada, claro. Não todas, lógico. Como? Produzindo entretenimento em vez de alimento sólido. Entretenimento produz meninos, exposição séria da Palavra produz homens. Não defenderei nem o equilíbrio entre eles, pois é preciso bem mais exposição da Palavra do que entretenimento. Quando as brincadeiras, palhaçadas, gincanas, festas e shows ganham destaque no agir da igreja a meninização se destaca nos jovens. E o que falar da feminização? Homens crescem em masculinidade com outros homens. É comum ver igrejas e jovens que têm seus exemplos de fé somente ou principalmente em mulheres. Muitos deles constroem seus referenciais em cantoras gospel ou pastoras famosas. Muitos são incentivados a dançar como mulheres. Muitos são influenciados por pastores meninos a se vestirem com traços femininos. A falta de homens causa mais falta de homens. O produto do entretenimento é a meninização. A falta de referencial é a causa da feminilização.

Quais são as consequências?

Quando meninos lideram eles produzem mais meninos. Quando meninos lideram eles não se tornam referenciais sérios de masculinidade. Quando meninos lideram a juventude cristã definha. A igreja perde sua força de sal e luz e vira uma cópia maquiada do mundo. Os jovens perdem o interesse pela Escritura, discipulado, evangelismo verdadeiro e santidade. Líderes produzidos pelo entretenimento gospel produzem dependentes de entretenimento gospel. E tudo isso colabora para a feminilização dos jovens. Fico triste de visitar congressos e shows onde grande parte dos jovens homens não se vestem, falam e agem como homens. Preconceito? Não, preocupação. Roupas não querem dizer muita coisa, mas elas nunca estão sozinhas, na maioria das vezes apenas refletem o comportamento de meninos gospelmente mimados. Esses serão os próximos líderes, e se assim continuar, nossa igreja sofrerá nas mãos de uma geração de homens mais interessada em brincar de igreja do que sofrer por ela.

O produto do entretenimento é a meninização. A falta de referencial é a causa da feminilização.

O que devemos fazer?

Líderes, principalmente de jovens, precisam tomar uma atitude. Aqueles que já desempenham uma liderança verdadeiramente masculina e compromissada com a Palavra devem continuar firmes, mesmo quando as tentações da moda e entretenimento baterem na porta. Esse líderes devem incentivar o crescimento espiritual e a maturidade nos jovens, escolhendo bem aqueles que liderarão outros e as futuras lideranças. Aqueles que insistem no entretenimento, nas modinhas e brincadeira devem dar mais atenção a Palavra. Em alguns casos até acabar de vez com qualquer aspecto dessa onda de brincadeiras e loucuras eclesiásticas. Os influentes devem começar a viver como homens de verdade, não meninos. Devemos ensinar sim, que homens possuem traços e comportamento de homem. Até brincar devemos brincar como homens. Palhaçada demais pode significar Bíblia de menos. Fico triste em ver igrejas que em todas as programações algo diferente, engraçado ou holywoodiano precisa acontecer. Fico triste ao ver líderes incentivando a meninice. Voltemos a suficiência das Escrituras. Resgatemos a seriedade que é ser um homem de Deus.

Por Pedro Pamplona, 
pamplonapedro.wordpress.com

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Predestinação e livre arbítrio

Estamos diante de um tema de difícil explicação, e a razão pelo qual é complexo se dá pelo fato de que ambas as posições são escriturísticas. O assunto tem sido objeto de discussão através da história do cristianismo a mais de dois mil anos, e hoje tem sido para nós um grande desafio. Os teólogos chamam estas interrogações de antinomia. Isto acontece quando duas doutrinas bíblicas parecem discordar uma da outra. 

O obstáculo notório é que na Bíblia existe uma coleção de versículos afirmando que Deus é soberano para escolher quem ele quer. Ele escolheu, predestinou, elegeu. Em sua soberania ele tem seus escolhidos desde a fundação do mundo (Rm 8.29; Ef 1. 4-5,11; Rm.9. 6-29; 1Pe. 2.8; Jd 4; 1 Pe 1.2,20. Nas palavras de Jesus esta verdade é confirmada: Ninguém poderá vir a mim, se, pelo pai, não lhe for concedido (Jo. 6.65; 6.44; 10.25-28).

Por outro lado, encontramos vários versículos que afirmam o contrario e diz que o homem deve se arrepender, e, portanto é responsável pelos seus atos. Deus é paciente em esperar nosso arrependimento (2 Pe. 3.9), é possível rejeitar a salvação (Mt. 23.37), temos o livre arbítrio pra ouvir ou não a sua voz e arrepender-se (Ap. 3.20). Leia também: Lc 15.7; Ap.16.9; Ap.16.11. 

Sua soberania é indiscutível porque esta verdade esta explicita em toda a Bíblia. Ele é o Deus todo poderoso e soberano sobre todas as coisas. Tanto o homem como todas as coisas que foram criadas têm como propósito glorificar o Deus de toda a eternidade porque tudo foi feito por ele e para ele, e, portanto ele é indiscutivelmente soberano para escolher quem ele quer.

O homem por sua vez deve arrepender-se de seus pecados, reconhecer sua condição de pecador, sua depravação. Sua responsabilidade está em retornar para Deus numa atitude de humilhação e arrependimento sincero. Deve ouvir a voz de Deus (Ap.3.20), Aceitar a salvação (Mt.23.37) e atender a perspectiva de Deus quanto ao arrependimento.

O tema predestinação e livre arbítrio têm levados vários estudiosos da Bíblia a trilhar no caminho perigoso do extremismo. O hipercalvinismo e o arminianismo extremo tomam posições radicais não deixando espaço para uma análise mais equilibrada das escrituras.

O primeiro afirma que Deus já tem seus escolhidos desde a fundação do mundo e, portanto não há necessidade de evangelizar. Deus haverá de salvar os seus. O Hipercalvinismo não admite a ideia da responsabilidade humana dogmatizando a doutrina da predestinação.

A segunda diz que o homem deve buscar e se esforçar para receber a salvação, não crê na depravação total do homem, não admitindo a ação exclusiva de Deus quanto à salvação dos perdidos. 

Não optando pelos extremos, entendemos que o assunto deve ser analisado com prudência e humildade, pois ambas são escriturísticas. Como já dissemos, a soberania de Deus é indiscutível, mas algumas questões difíceis de explicar precisam ser colocadas aqui.

Primeiro, como Deus pode escolher a uns e desprezar a outros, visto que as escrituras diz que Deus não faz acepção de pessoas (Mt.11.28; Jo.17.20; 6.39) ? Seria pela sua presciência, sabendo quem haveria de aceitar a Cristo (arminianismo), ou pela sua soberania escolhendo quem ele quer (calvinismo)?

Segundo, e o que dizer do caso de faraó onde as escrituras nos informa que num momento Deus endurece seu coração, mais adiante o rei por sua própria vontade endurece o seu coração (Ex. 9; 12; 8:15). Soberania de Deus e livre arbítrio se misturam no caso de faraó? Difícil de responder.

Não há outro caminho a trilhar se não o do equilíbrio (Pv.3.21). Creio na possibilidade de unir duas verdades bíblicas que parecem divergir uma da outra num paradoxo. Não podemos exaltar uma doutrina em detrimento da outra, ambas são como duas linhas que correm horizontalmente lado a lado e que se encontram no final. Como diz o Dr. Augustus Nicodemus, são como dois trilhos de trem que seguem no sentido horizontal e depois desaparecem. Não sabemos o destino, somente no final.

Olhando por esta janela, podemos crer que Deus é soberano para predestinar, eleger, escolher e até rejeitar quem ele quer, mas por outro lado, o homem é responsável pelos seus atos. É desafiado a buscar a Deus. Deve arrepender-se de seus pecados, crer em Jesus e aceitá-lo como Senhor e Salvador de suas vidas. Certamente o mistério que atravessa os séculos será revelado na eternidade, pois como diz o apostolo Paulo: Conhecemos em parte, mas na sua vinda o que está oculto será revelado (1 Cor. 13. 8-12).

Portanto, Deus é soberano e tem os seus escolhidos desde a fundação do mundo, no entanto a escritura anuncia a todos os homens que se arrependam e se convertam dos seus maus caminhos (Mt 4:17;Mc 1:15;At;2:38;At:17:30).

Por Marcos Aurélio dos Santos

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Ideias equivocadas sobre a eleição divina

“Aquele que vier a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (João 6:37)

Há sempre aqueles que não compreendem a mecânica da eleição, aqueles que leem na doutrina coisas que não estão ali. Por isto, será proveitoso dedicarmos algum tempo examinando algumas ideias equivocadas sobre esta grande e gloriosa doutrina. Existem sempre aqueles que dizem, “Não está certo, não é justo Deus escolher algumas pessoas e deixar outras”. Há diversas maneiras de responder a esta objeção. Nós podemos dizer, como o apóstolo Paulo em Romanos 9: 20-21, “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quemo fez: porque me fizeste assim? Ou não temo oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra, e outro para desonra?”. Quem é o homem para dizer a Deus que Ele é injusto? Ele é o Criador, e pode fazer com a criatura o que bem Lhe agradar. Nós também podemos responder a esta objeção (de que não seria justo Deus escolher alguns homens e deixar outros) dizendo que fazer esta objeção é negar um fato cardeal de Evangelho — nominalmente que a Salvação não é uma recompensa a ser ganha, ou um prêmio a ser merecido. É simplesmente um dom imerecido. E uma vez admitindo que a Salvação é um dom, nós, pela lógica, somos levados a aceitar a doutrina da eleição. Porque se é um dom — um dom, lembre-se, Deus pode distribuir como Ele quiser. Ele não apenas tem esta prerrogativa, mas de acordo com as Escrituras Ele a exerce. “Logo, ele tem misericórdia de quem quer, e também endurece a quem lhe apraz”. (Romanos 9:18). Deus não está em débito com ninguém. Ele poderia mandar todas as almas para o inferno, e ainda assim ser justo, pois a salvação não é questão de justiça, mas uma questão de graça, e graça é um dom e um dom é dado de acordo com a vontade do doador. 

Se Você o Quer, Então Você Já Recebeu 

Sempre surge a questão, “E a pessoa que deseja ser salva, mas não pode ser, no caso de não ser um dos eleitos de Deus?”. Deixe-me enfatizar uma coisa — tal pessoa não existe! Seria impossível para uma pessoa desejar a Salvação e não recebê-la, porque você vê, o simples desejo pela Salvação já é uma indicação de que Deus deu àquela pessoa o desejo. E se Deus deu-lhe o desejo, também providenciará para que tal desejo seja satisfeito e cumprido. Lembre-se, é uma cadeia intacta e contínua. Se a pessoa deseja conhecer a Cristo como Salvador, isto é um sinal seguro de que Deus já iniciou nela, em seu coração, a obra da graça; e aquela obra, tendo sido iniciada, será completada, e a pessoa virá em fé a Cristo. Criar uma pessoa que suspira, “Ó, eu desejo ir para o céu, mas não posso porque não sou um dos eleitos de Deus,” é criar uma pessoa hipotética, inexistente. Suponha que eu tenha algo em minha mão que você considere sem valor; algo absolutamente sem utilidade para você. E suponha que eu diga, “Eu vou dar esta coisa para fulano de tal”. Você não tem o menor direito de resmungar ou reclamar porque, para início de conversa, você nem iria querer aquela coisa. O descrente, o não cristão, diz através de sua atitude e comportamento na vida, que ele não quer Deus, não quer Cristo, e não quer salvação. Mas se ele quer, então ele os terá a todos. Cristo nunca afastará de si aqueles que vierem a Ele; é Ele mesmo que diz, “Aquele que vier a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (João 6:37). Se você O quer, então você pode tê-Lo. E Se você não O tem, é porque você não O quer. Portanto, não crie a pessoa hipotética que diz, “Eu O quero, mas não posso tê-Lo”. Tal pessoa não existe. 

Os Meios da Salvação 

Mas, isto levanta sempre uma outra questão: Então para que pregar o Evangelho a alguém se aqueles que vão ser salvos, serão salvos, e aqueles que não vão ser salvos, não serão salvos? Qual então a razão de toda a conversa sobre evangelismo e missões, e para que toda a excitação sobre a pregação e a oferta de convite para alguém aceitar a Cristo como Salvador? A eleição não cortaria o nervo do evangelismo? Claro que não. Honestamente, pensemos bem nisto. Você espera estar vivo no próximo domingo? Diga-me a verdade. Você espera estar vivo no próximo domingo? Você sente que Deus lhe dará mais uma semana na terra? Você realmente sente, não sente? É claro que sim. Neste caso você não precisa comer nem beber hoje, ou amanhã, ou durante toda a semana; você não necessita nenhuma comida ou bebida ou repouso ou medicamentos, se você estiver tomando algum, durante a próxima semana. Por quê? Porque se Deus tem predestinado para que você seja mantido vivo durante a próxima semana, então não importará o que você faça. Pense bem, não é isto ridículo? É total estupidez, não é? Se você espera estar vivo na próxima semana, então você irá aplicar e usar os meios que Deus usa para manter a vida. Você irá comer, beber, repousar, tomar medicamentos, se necessário. O mesmo princípio se aplica à eleição. Deus ordenou não apenas o fim, a salvação de certas pessoas. Ele também ordenou os meios pelos quais a salvação será realizada. E de acordo com a Bíblia, Deus ordenou a proclamação do Evangelho como o meio que Ele usa para trazer as pessoas das trevas para a Sua maravilhosa luz. Você ainda acha que isto corta o nervo do evangelismo? Pelo contrário, a doutrina da eleição encoraja o evangelismo. É o maior de todos os motivos possíveis para se sustentar um testemunho fiel e verdadeiro. É uma coisa aterradora perceber que Deus pode ter incluído você em Seu plano eterno para a salvação de algumas outras pessoas. Isto faz você querer sentar-se e ficar girando os polegares? Claro que não! Isto faz você desejar dizer a todos quantos se encontrar que, “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). 

Por W. Wilson Benton Jr.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A mecânica da eleição divina

“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conforme a imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E, aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou” (Romanos 8:29-30)

Qual é a mecânica da doutrina da eleição? Como ela funciona? Para responder a esta questão, volvamos a atenção para o trecho das Escrituras que tem sido chamado de a corrente ou a cadeia de ouro de Romanos 8, versículos 29 e 30.  Segundo W. Wilson Benton Jr., a mecânica da eleição está dividida em quatro elos. É uma corrente que, estendendo-se de eternidade a eternidade, a um ponto, desce e toca o tempo. Um dos extremos está ancorado na eternidade passada, onde fomos pré-conhecidos e predestinados — e a outra extremidade está ancorada na eternidade futura, onde somos glorificados — o meio desta cadeia descendo e tocando a terra onde somos chamados e justificados. 

Trata-se de uma cadeia contínua e ininterrupta. Não é que alguns foram pré-conhecidos, e destes, alguns foram predestinados, e destes, alguns foram chamados, e destes, alguns foram justificados, e destes, alguns foram glorificados. Não! todos os que foram de antemão conhecidos, foram também predestinados, e estes foram chamados e justificados, e também glorificados. 

Um Conhecimento Íntimo 

Olhemos de perto os elos daquela corrente. “Aos que Deus de antemão conheceu”. O que isto quer dizer? Bem, alguns dizem que quer dizer que Deus estava previamente familiarizado com todas as pessoas antes mesmo que algum ser humano tivesse nascido. Deus conhecia todos os homens. Vejamos como que isto se encaixa. Se conhecer previamente significa estar previamente familiarizado com todos os homens, e eles dizem que Deus estava previamente familiarizado com todos os homens, então Deus previamente conheceu todos os homens. Isto implica, então, que todos são predestinados, todos são chamados, todos são justificados, e todos serão glorificados. E isto significa que todos os homens estão indo para céu. “Não”, nós dizemos, “Não pode ser este o significado. Talvez queira dizer que Deus de antemão conhecia alguns aspectos da vida das pessoas.” “Aqueles a quem Deus soube de antemão que aceitariam a Jesus Cristo como Salvador, estes ele predestinou para a vida eterna”. A Bíblia também não diz isto. Você poderá procurar em toda a Bíblia, de capa a capa, pela qualificação desta afirmativa, e não encontrará. Ela apenas diz. “Aqueles que Deus de antemão conheceu”. A chave para entender a palavra neste caso, reside em entender o que significa conhecer alguém no sentido bíblico. De acordo com o uso nas Escrituras, conhecer alguém significa ter com ela um relacionamento próximo, íntimo e pessoal. Existem pessoas em nossas congregações sobre as quais poderíamos afirmar que “Já nos vimos algumas vezes, mas eu realmente não as conheço”. Nós estamos usando o verbo “conhecer” num sentido bíblico, quando fazemos tal afirmativa. Deus falou, referindo-se a Israel, “De todas as nações, somente a vós outros vos escolhi” (“conheci”) (Amós 3:2a). Aquilo não quer dizer que Deus não conhecia as outras nações. É claro que Ele as conhecia todas. Mas foi sua maneira de dizer “Eu tenho um relacionamento especial com você”. Quando Maria foi informada pelo anjo de que ela teria um filho, ela disse, “Como se fará isto, visto que não conheço varão?”. Com isto Maria não quis dizer que nunca havia visto um indivíduo do sexo masculino; o que ela disse foi que nunca havia tido um relacionamento íntimo com um homem, a ponto de conceber dele um filho. Este é o significado do verbo “conhecer” na Bíblia, e é o significado usado naquela passagem de Romanos. Quando Deus de antemão conhece seu povo, isto quer dizer que Ele tem com as pessoas envolvidas um amor especial, e entra com eles num relacionamento especial, muito antes deles virem a nascer. Este é o primeiro elo da cadeia: Deus de antemão conhece seu povo.

No Caminho para a Salvação

Naquela passagem também é dito, “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou”; quer dizer que Ele não apenas escolheu um povo para Si, mas ele estabeleceu o procedimento através do qual esse povo viria a Ele. Charles Spurgeon formulou um modo interessante para explicar o relacionamento entre pré-conhecimento (conhecimento de antemão) e predestinação: “O pré-conhecimento foi pelo mundo afora marcando as casas às quais a salvação viria, e os corações onde o tesouro deveria ser depositado. O pré-conhecimento olhou a raça humana, desde Adão até o último, e marcou comum a estampa sagrada aqueles para os quais a Salvação havia sido designada. Depois veio a predestinação. A predestinação não apenas marcou as casas, mas mapeou o caminho através do qual a Salvação deverá viajar até chegar à cada casa. A predestinação ordenou cada movimento do grande exército da Salvação; ordenou o tempo quando o pecador será trazido a Cristo, a maneira como será salvo, e os meios que devem ser empregados; a predestinação marcou a hora exata e o momento quando Deus, o Espírito, deve vivificar mortos em pecados, e quando paz e perdão serão comunicados através do sangue de Jesus Cristo. A predestinação marcou o caminho de modo tão completo, que a Salvação não saltará jamais um passo, não queimará etapas, nem jamais estará perdida no caminho”. Este é o segundo elo da cadeia: Deus ordenou os meios pelos quais uma pessoa virá à fé em Jesus Cristo.

O Chamado do Espírito

O terceiro elo é o chamado, e aqui a cadeia desce da eternidade até o tempo. “E os que predestinou, a estes também chamou”. Aqueles a quem Deus escolheu, Ele os chamou no homem interior, pela operação de Seu Espírito, para, em fé, responder à oferta do Evangelho. Muitas pessoas têm sido chamadas; pense nisto. Pense nos milhões de pessoas que têm ouvido Billy Graham na televisão, ou pense nos milhões de pessoas que ao longo da história têm ido às igrejas e ouvido o Evangelho sendo pregado, e o convite para aceitar a Cristo como Salvador sendo oferecido. Muitos são os chamados, mas poucos são os escolhidos. Muitas pessoas ouvem exteriormente o chamado do Evangelho, mas poucos respondem interiormente. Apenas aqueles que são chamados pelo Espírito de Deus responderão interiormente. Sem o chamado do Espírito de Deus, a pessoa jamais responderá ao convite. Ela está, de acordo com as Escrituras, morta em delitos e pecados (Efésios 2:1). Ela não pode fazer nada até que o Espírito a desperte, dizendo, “Ouça, é a voz de Deus a chamar-te”. Este é o terceiro elo da cadeia: o chamado do Espírito de Deus para aceitar a Jesus Cristo em fé.

Perdoado dos Pecados

“E aos que chamou, a estes também justificou” — o quarto elo da cadeia. A pessoa que responde ao chamado e aceita a Cristo como Salvador é a pessoa que é perdoada de seus pecados. A justiça de Cristo torna-se a sua justiça, e a morte de Cristo torna-se a sua morte, e a penalidade por seus pecados é paga. Aos olhos de Deus, a pessoa permanece “como se” nunca tivesse pecado. Diante da Lei é declarada justa.

A Certeza do Céu

Os que são justificados aos olhos de Deus, são os que são glorificados. Você e eu somos glorificados, mas você diz, “Espere um minuto, você fala como se eu já estivesse no céu. Mas eu ainda não cheguei lá.” Não, mas o texto usa o tempo passado, não usa? “E aos que justificou, a estes também glorificou”. A segurança é tamanha, e é tão certo na mente de Deus que você estará nos céu, que Ele pode falar como se você já estivesse lá. Se Deus chamou você, então você ouvirá e responderá, e em respondendo lhe será dada a segurança da vida eterna na presença Dele. Este é o quarto elo da cadeia: E aos que chamou, a estes também justificou e glorificou.

A cadeia é intacta e contínua. Deus o Pai escolhe; Cristo o Filho morre; e o Espírito Santo nos chama à fé — as três pessoas da Trindade estão unidas em trazer-nos a Salvação. Este é o modo como funciona, a mecânica da Salvação.